Setembro se abre com uma novidade na carteira dos mais endinheirados. Começou a circular a nota de R$ 200. Pra quê? Por que foi criada? A polêmica é grande e as explicações do governo não têm consistência. "Não valem um tostão", como dizia a minha avó.
Seria implicância com o comércio varejista, para dificultar o troco? Hoje, 21% das cédulas em poder da população são de R$ 100, o que dificulta muito as vendas em pequenos comércios. Imaginemos, agora, com a nota de R$ 200...
Será que o governo caiu em sugestão de espertalhões? O óbvio tornou-se voz corrente: as notas de R$ 200 favorecerão a corrupção. Permitirão esconder maior valor nominal dentro da cueca. Ou em mochilas ou malas. Nada menos que 450 milhões de cédulas de R$ 200 serão impressas até o final deste ano. Somam R$ 90 bilhões. A atitude brasileira destoa dos esforços de vários países, em diferentes continentes, para restringir a circulação de cédulas de elevado valor nominal. As emissões estão diminuindo para dificultar crimes, como lavagem de dinheiro e outros.
No início de 2019, quando Bolsonaro chegava ao Planalto, cogitou-se retirar de circulação as cédulas de R$ 100 para dificultar transações ilícitas em espécie. Agora, ocorre exatamente o contrário. O Banco Central argumenta que o pagamento do auxílio emergencial aumentou a demanda por papel-moeda. Sim, mas esse auxílio só vai durar mais três meses, e o valor será a metade de R$ 600 pagos no início da pandemia. Portanto, a necessidade maior de cédulas já passou.
Tem-se certeza de que a criação de cédula não consta das prioridades do Brasil. O momento de estabilidade monetária não dá motivo para lançamento da nota de R$ 200. É mais um empurrãozinho para piorar as contas públicas. Também deveria ter sido evitado o gasto de R$ 113 milhões a mais do que o previsto no orçamento anual. É o custo para a produção das cédulas de R$ 200 em 2020.
Além do mais, vive-se cenário de crescimento - irreversível, diga-se - de utilização da internet para realizar pagamentos virtuais. A eletronização do dinheiro veio para ficar. Criar nova cédula é retrocesso.
Tenhamos cuidado para não cometer injustiça com o lobo-guará, que estampa a cédula de R$ 200. Ele não tem culpa no imbróglio. Sua imagem foi escolhida em antiga pesquisa, feita em 2001 pelo Banco Central, para saber da população que espécimes da fauna gostaria de ver representada no dinheiro brasileiro. De certa forma, a eleição do lobo-guará pareceu-se com a de Bolsonaro. Migrou da condição de pouco conhecido para tornar-se escolhido.