“Depende de nós / Se este mundo ainda tem jeito / Apesar do que o homem tem feito / Se a vida sobreviverá” (Depende de nós, Ivan Lins e Vitor Martins)
Além de tanta notícia ruim que nos chega todos os dias por causa da pandemia, ainda precisamos desconfiar de tudo que é noticiado, afinal, também estamos convivendo com o fenômeno das fake news.
Ainda bem que no meio dos acontecimentos lamentáveis e catastróficos, há fatos positivos que nos deixam esperançosos, como tem sido os gestos de solidariedade de muita gente. Por outro lado, também aparecem a toda hora notícias sobre golpes dados por quem se aproveita da situação de excepcionalidade pela qual passa o mundo.
Daí que mesmo entristecidos com a morte do Flavio Migliaccio, mais chocante ainda foi a carta de despedida que ele deixou, principalmente na passagem que diz “a humanidade não deu certo”. Por tudo que temos visto nas últimas semanas, deve haver muita gente que concorde com o saudoso ator.
Mas a solidariedade tem se mostrado a “mola mestra” de uma nova etapa da humanidade, uma vez finalizada o momento drástico de contágio da Covid-19. E aqui cabe lembrar uma das definições de mola mestra: “uma espécie de fio condutor para nos levar a algum outro ponto mais acima do qual estamos. Seria o que nos impulsiona na direção correta para alcançarmos algo novo, melhor ou superior”.
O desprendimento também está sendo apontado como algo que nos caracterizará no período pós-pandemia. Mas, se assim for, por que se formaram filas de consumidores na porta de lojas como a Zara logo após as medidas de relaxamento do isolamento social em lugares como a França e a China? Como é possível explicar a avidez consumista imediatamente ao fim do período de confinamento, quando se imaginava que todos teriam como prioridade sair às ruas para encontrar pessoas, ir aos parques, deitar na grama, ouvir o vento mexer as folhas das árvores...? Ou seria esta notícia das filas na porta da Zara apenas mais uma fake news?
E na Itália, quando logo após o relaxamento da quarentena, mas ainda com orientações do governo para que a população mantivesse distanciamento preventivo, se viram centenas de jovens amontoados em bares e festas ao ar livre?
A provável ameaça de que o coronavírus permaneça de modo crônico em nosso planeta, tal como já está sendo cogitado pela Organização Mundial da Saúde, implicará que diversas medidas adotadas durante o confinamento atual não serão efêmeras, devendo se tornar permanentes.
Deste modo, as possíveis consequências positivas e negativas do pós-pandemia já começam a ser esboçadas por órgãos de governo, institutos de pesquisa, cientistas e, por que não?, por aqueles especialistas formados pelo Google e que dominam todo tipo de assunto.
Se a questão ambientalista era até a pouco tempo a preocupação principal, isso tende a mudar. Exemplo: por conta da poluição produzida com plásticos, como os canudos, copos e embalagens descartáveis em geral, que foram inclusive responsáveis pela morte de diversos animais terrestres e marítimos, havia um movimento para a extinção deste tipo de produto ou material (reforçado até por leis edílicas em algumas cidades brasileiras que proibiram o uso de canudo plástico). Agora, ao contrário, é provável que haja uma política sanitária de retorno ao uso de descartáveis, a despeito dos impactos ambientais deste tipo de ação.
Ou seja, se a coleta e tratamento do lixo já era um sério problema a ser enfrentado pelas cidades e suas populações, notadamente em países em desenvolvimento como é o caso do Brasil, o risco dele se agravar é iminente, até por que num primeiro momento a dificuldade financeira dos governos federal, estaduais e municipais implicará em cortes em diversas políticas públicas, incluindo nas ações de saneamento.
Se os recursos são poucos, quem deve ser priorizado: jovens ou idosos? Salvar a economia ou preservar vidas? Combater o aquecimento global ou a Covid-19? A divisão ideológica do mundo que já vinha se acirrando até a pouco tempo, só tende a se agravar. São todas questões éticas que farão parte do novo mundo que está por vir...