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Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

Após quarentena, temos prova de que é possível viver de outra forma

O mundo precisava desacelerar para o bem do meio ambiente e do ser humano. Mas nada era feito, até que uma pandemia fez tudo parar...

Publicado em 28/10/2020 às 05h00
Depois do carnaval, é hora de voltar ao trabalho
Depois do carnaval, é hora de voltar ao trabalho. Crédito: Pixabay

O tempo que ganhamos conosco mesmos durante o isolamento social imposto pela pandemia da Covid-19 não nos pode ser tirado!

Uma das grandes reclamações da vida contemporânea antes da pandemia da Covid-19 era a falta de tempo e o excesso de atividades que nos atribulavam o dia a dia. Quem, antes da pandemia, nunca reclamou da falta de tempo para se dedicar à família, a si mesmo ou à prática de um atividade de lazer? A sociedade vivia em um ritmo acelerado, o tempo parecia passar mais rápido a cada dia com o excesso de informações que recebíamos e demandas que tínhamos que atender just-in-time.

O ser humano há anos não sabia o que era descanso, ao menos a maioria da população trabalhadora do planeta, que vivia atolada num ciclo vicioso entre acordar, trabalhar, dormir, acordar e trabalhar de novo. Somente os cidadãos mais abastados podiam realmente gozar de alguns momentos de descanso ou passar férias em paraísos espetaculares, pois, na verdade, a maioria da classe trabalhadora vivia para trabalhar (se empregada) ou em busca de formas de trabalho para manter o seu sustento.

Além disso, o tempo de deslocamento para os locais de trabalho só aumentava nos últimos tempos. Numa cidade como São Paulo, por exemplo, em média gastávamos de duas a quatro horas de deslocamento por dia para ir e voltar do local de trabalho para casa.

Em casa, a maioria das pessoas, em especial as mulheres, tinham que lidar com uma jornada dupla de trabalho, pois além do trabalho remunerado na sociedade, a mulher também tinha e ainda tem (mesmo em home office) que cuidar das tarefas domésticas e dedicar algumas horas saudáveis aos seus filhos, isso quando não tem mais de um emprego para dar conta de pagar todas as despesas do lar.

Além do ser humano, o meio ambiente vinha sofrendo há muito tempo com a velocidade com que as coisas aconteciam no planeta. Com o aumento do tráfego de informações, aumentou também a necessidade de transportar pessoas, alimentos, bens de consumo e outras comodities ao redor do globo, emitindo-se assim cada vez mais gás carbônico na atmosfera. Todos os meios de transporte usados para dar conta do comércio internacional demandavam uma enorme quantidade de combustíveis fósseis, que para gerar energia, laçavam grandes quantidades de gás carbônico na atmosfera, aumentando, assim, o aquecimento global numa velocidade absurda.

O mundo precisava parar para o meio ambiente e para o ser humano. Todos os líderes mundiais sabiam disso, em reunião após reunião sobre aquecimento global recebiam as mesmas mensagens, saiam de lá sabendo que somente uma mudança radical no nosso modo de vida faria reduziria o aquecimento global e daria condições de sobrevivência ao planeta. Mas nada era feito, até que uma pandemia fez tudo parar...

A descoberta da Covid-19 em dezembro de 2019 deu ao mundo a oportunidade que todos nós precisávamos. A doença começou a se espalhar pelo mundo, também em grande velocidade, sem que cientistas até hoje tenham descoberto um remédio eficaz para combatê-la. A forma mais eficaz de reduzir os riscos da doença e o número de mortes seria praticar o isolamento social. Nova York a cidade mais cosmopolita do mundo, a cidade que nunca dorme, espelho da sociedade contemporânea, fechou-se para o mundo em 22 de março de 2020.

Gostaria de refletir aqui um pouco sobre o simbolismo da ordem do prefeito de Nova York para que as pessoas ficassem em casa.

Se olharmos para dezembro de 2019 antes da notícia do vírus e analisarmos a forma como as coisas vinham acontecendo no mundo: a velocidade com que as novas tecnologias de informação dominavam o nosso dia a dia para que nós agíssemos de forma mais veloz sempre, na exigência de respostas rápidas, de postagens contínuas, de compras e trocas de produtos novos o tempo todo; será que imaginaríamos que o mundo seria obrigado a parar?

Ninguém previu o que aconteceu – e está acontecendo ainda em 2020: cidades fechadas, vidas reclusas, pessoas tendo que conviver mais consigo mesmas, com as suas famílias. O meio ambiente respirando aliviado, as emissões de gás carbônico sendo reduzidas a um nível que há muito não se alcançava, por conta da redução sem precedentes do número de viagens ao redor do planeta. Tudo isso nos deve servir de reflexão para que não aceitemos que as coisas voltem a ser como antes. Quando se falava que não era possível mudar o nosso estilo de vida, isso não era verdade. Hoje temos a prova de que é possível viver de outra forma, de uma maneira que protege o planeta e o ser humano.

A forma como vivíamos em relação a nós mesmos – seres humanos – e ao meio ambiente não era saudável nem sustentável, com o passar do tempo, não fosse a parada obrigatória causada pela pandemia, adoeceríamos e morreríamos sem sequer dar conta de que a falta de tempo e o consumo absurdo de combustíveis fósseis nos teria extinto, a nós e ao planeta.

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