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Reflexão

E quando a estatística somos nós?

Estatísticas têm história, nome e sobrenome. E, nestas peças que a vida prega, algumas delas saem do noticiário para se sentar no sofá, bem do nosso lado

Públicado em 

24 jan 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Pessoa usando máscara na pandemia
Quantas famílias choram cada um dos 2 milhões de mortos pela Covid-19 no mundo? Crédito: Freepik
Estatísticas existem para transformar números em informação. A partir delas, estrategistas determinam caminhos, estradas e atalhos, autoridades planejam ações, reações ou omissões, jornalistas retratam economias e sociedades. A partir delas, as perspectivas se desenham, os panoramas se pintam, o futuro se projeta.
Nascidas do encontro entre a coleta, a análise e a interpretação de dados matemáticos, as estatísticas nos ajudam a compreender o mundo - ou partes dele.
Graças a elas, somos capazes de hierarquizar perdas e vitórias, categorizar indivíduos e grupos, prever batalhas, organizar ofensivas. Por causa delas, igualmente, analistas nos explicam probabilidades, estimam fenômenos futuros, modelam dúvidas e possibilidades.
Vistas de pertinho, no entanto, estatísticas têm história, nome e sobrenome. Quantas famílias choram cada um dos 2 milhões de mortos pela Covid-19 no mundo? Como foi o dia seguinte de filhos, pais, mães, irmãos, maridos, esposas e amigos de luto, sem contar os que perderam gente próxima por outras causas e, por conta das restrições impostas pelo coronavírus, não puderam realizar as despedidas que consideravam adequadas?
Quanto de fome há na mesa dos mais de 12 milhões de desempregados no Brasil da pandemia? Que sonhos ficarão para trás na vida dos que não serão vacinados agora? Que arestas carregam os mais de oito mil casais que decidiram se separar durante o isolamento social? Que dores afetam os quase 650 mil pacientes com câncer hoje no Brasil? Como se sente a avó do piá de pele preta assassinado quando voltava do fluxo?
Estatística, segundo a definição corrente, é a ciência que se dedica a produzir a melhor informação possível a partir dos dados disponíveis. Seu objetivo central: compreender as situações que se dispõe a avaliar, a partir de métodos sistemáticos de colheita, organização, resumo, apresentação e interpretação dos números.
Mas o que fazer quando as estatísticas batem à porta da nossa casa, roubam o nosso sossego, ocupam a rotina e o coração eliminando repentinamente todas as urgências? Como lidar com o fato de que, às vezes, a estatística somos nós?
Sim, vistas de pertinho, estatísticas têm cara, história, nome e sobrenome. E, nestas peças que a vida prega, algumas delas saem do noticiário da televisão para se sentar no sofá, bem do nosso lado.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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