No dia do meu aniversário, dei de cara com um retrato de Patti Smith. Seu cabelão grisalho acompanhado de um par de olhos ligeiramente tristes parecia dizer que era o momento exato para lembrar do que eu havia aprendido com ela anos antes.
Que, às vezes, tudo o que a gente precisa é olhar uma questão por outro ângulo.
Que o desassossego poucas vezes vale a pena. É possível sobreviver e viver tendo como preocupação imediata apenas onde ir em seguida e o que fazer quando chegar lá.
Que muitas vezes a contradição é o caminho mais claro para a verdade.
Que, frequentemente, é preciso lembrar da alegria embutida no ato de dançar.
Que, nos casos de amor verdadeiro, a regra é clara: a cada um [ou dois] cabe encontrar o jeito mais acertado de escrever a história, apesar do que os outros vivem, pensam ou dizem.
Que há um bocado de beleza em ser leal ao mesmo tempo em que se é livre, apesar de toda a dificuldade de se ser leal e livre ao mesmo tempo.
Que a música cura [disto eu já sabia], mesmo que para certos músicos não seja permitido curar a si mesmos.
Que um novo cenário traz novos ruídos, exatamente como disse Arthur Rimbaud com seu olhar arrogante na da capa de Illuminations.
Que, apesar daqueles que perdemos ao longo do caminho, nosso pacto com a vida deve ser perenemente renovado.
Que o sujeito que contou seu segredo na página cento e nove tinha toda razão, e era um segredo bem simples: “Se você bater no muro, não pare”.
Embora tenha uma longa trajetória na música, Patti Smith me fisgou pela literatura, especificamente pelo livro “Só Garotos”, de 11 anos atrás.
Era surpreendente não apenas o conteúdo, mas também a forma como aquela senhorinha plenamente hippie narrava as memórias de seu encontro com o artista visual Robert Mapplethorpe, amigo, namorado, amante, cúmplice e mais um bocado de coisas, ao longo de duas décadas.
Patti Smith tem hoje 74 anos. Robert Mapplethorpe morreu em 1989, não sem antes desenhar um sólido caminho como artista e se descobrir homossexual. “Só Garotos” retrata o relacionamento simbiótico e pouco convencional entre os dois, desde que se conheceram, no verão de 1967, e também o efervescente cenário cultural daquela época.
Relacionamento simbiótico e cenário efervescente parecem parece viver, ainda hoje, no cabelão grisalho acompanhado de um par de olhos ligeiramente tristes de Patti Smith.
Numa entrevista recente, ela contou que preserva as excentricidades de sempre, entre elas a vontade de abrir uma lojinha que sirva apenas café, pão e azeite de oliva. Disse que as únicas regras que nunca quebra são as de decoro. E revelou que, durante a pandemia, entendeu que ser livre é um privilégio, uma conquista alcançada quando alguém dedica a vida a não atrapalhar e a crescer como pessoa, mesmo que tenha de abrir mão de certas liberdades em nome disso.
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