“Não existiria som / Se não houvesse o silêncio / Não haveria luz / Se não fosse a escuridão” ("Certas Coisas", Lulu Santos e Nelson Motta)
Dicotomias existem, fazem parte da nossa vida. Na verdade, as oposições servem de referenciais que moldam nosso modo de ver o mundo, formando nosso caráter. Em cima versus embaixo, quente ou frio, o gordo e o magro, quem tá fora e quem tá dentro?... Como qualificar algo sem um referencial que lhe sirva de oposição?
Vinicius só podia falar da beleza porque existe a feiura. Imaginem a chatice do mundo se todas as mulheres tivessem o rosto igual ao da Charlize Theron ou da Paolla Oliveira! Ou se todos jogassem bola igual ao Pelé ou o Messi. Vejam a natureza, que mesmo com toda sua sabedoria, criou tanto o tigre como o babuíno; nos deu o pavão, mas também o urubu.
O problema é, claro, quando o copo está pela metade: ele está meio cheio ou meio vazio?
Outra questão é o papel que interferências alheias podem dar ao qualificar qualquer elemento da natureza, qualquer objeto humano, qualquer artefato criado. E aí, o que era bom passa a ser ruim, o que era péssimo se torna ótimo. Trata-se de algo, por exemplo, que é recorrente no âmbito da arte e da cultura.
Comecemos, porém, usando a natureza para exemplificação deste processo. De modo usual, considera-se a praia como um lugar desejado, estimado, até mesmo sinônimo de Paraíso. Mas nem todas as praias possuem a mesma beleza. E uma praia, mesmo quando bonita, pode tornar-se feia caso esteja suja, poluída, ou temida, quando a maré está cheia e o mar revolto. E se alguém, por acaso, teve uma experiência aterrorizante numa praia, seja um assalto ou quase um afogamento, é possível que passe a desprezar ou odiar tal tipo de lugar, jamais voltando a ter desejo em estar num litoral, passear à beira-mar, pisar na areia e sentir a brisa do mar.
No caso da arte, é sabido o quanto no Brasil da primeira metade do século XX, os modernistas, ao criarem o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (atual Iphan), protegeram a arquitetura colonial em detrimento de outros estilos, como foi o caso do ecletismo. Tal ideia que permeou boa parte da nossa história, apesar de todas suas boas intenções, foi a que, de certo modo, permitiu a demolição de monumentos ecléticos, como o célebre Palácio Monroe no Rio de Janeiro, antigo Senado Federal.
Enfim, o certo é que muitos artistas são produtos da mídia, tanto quanto podem padecer por causa dela.
São inúmeros os casos, alguns muito populares, e que hoje viraram biografias bastante conhecidas que bebem na fonte de sucessos e fracassos de muita gente famosa. Tal como se deu com Wilson Simonal, que durante a ditadura, viu sua exitosa carreira musical virar pó de uma hora pra outra.
Mas não é só na cultura que trajetórias são alteradas em função do lado que cada um atua quando se vive num mundo polarizado. No futebol temos João Saldanha, que após ser técnico do vitorioso time do Botafogo, montou e classificou a equipe da Seleção Brasileira que iria disputar a Copa do Mundo de 1970, daquele que pra muita gente foi o melhor time de todos os tempos. Saldanha, no entanto, ao não ceder à pressão do então presidente e ditador Emílio Médici, que queria interferir na escolha de alguns jogadores, saiu, foi mandado embora. Menos mal que seu substituto, Zagallo, foi capaz de levar aquele timaço ao título.
Em tempos de polarização, parece não haver o caminho do meio. A pessoa acaba no limbo, sendo rechaçada por aqueles que estão tanto de um lado quanto do outro. Uns querem luz, outros preferem a escuridão. Tem quem goste da calmaria, mas muitos buscam a agitação, e às vezes, nenhum dos lados se entende com o seu oponente, ninguém levanta a bandeira da paz, partem para o enfrentamento. O resultado é uma confusão, na qual muitos acabam nem mais sabendo de que lado estão.
É o caso da dicotomia esquerda x direita. Do ponto de vista político e, em linhas gerais, esquerda é quando um governo, para atender às pessoas mais frágeis da sociedade, busca implantar um estado com grande capilaridade e, para isso, precisa arrecadar mais, tornando-se mais pesado; já a direita é quando, ao contrário, o governo entende que o estado tem que ser enxuto, arrecadando o mínimo suficiente para o seu funcionamento, de tal modo que o dinheiro circule de modo mais livre, proporcionando investimentos e iniciativas da própria sociedade.
Ambas ideias têm suas razões de ser, aliás, bom seria se todo o debate ficasse no âmbito das ideias conceituais e suas aplicações práticas. Contudo, ao longo da história, vimos como governantes tanto de esquerda quanto de direita, visando o pleno êxito dos seus ideais, tomaram medidas autoritárias e descambaram para processos ditatoriais.
O pior é quando parte da população parece não entender a dubiedade deste tipo de maniqueísmo que acaba corrompendo a todos e nos levando pra longe de uma harmonia tão desejada, mas, pelo que se vê, tão distante da realidade.
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