Há duas frases bem conhecidas sobre Deus, na qual uma afirma que ele “é o arquiteto do mundo” e a outra diz que ele “é brasileiro” (se bem que, pelo o que temos visto ultimamente por aqui, na terra de Macunaíma, esta segunda afirmação não nos dá muita certeza disso não...). O fato é que em 2021, nós, arquitetos brasileiros, teremos boas razões para nos sentirmos orgulhosos e comemorarmos.
Inicialmente programado para 2020 no Rio de Janeiro, o 27º Congresso Mundial de Arquitetos, por causa da pandemia, teve sua data alterada para este ano, e agora já num formato híbrido, contando com eventos (palestras, debates, exposições etc.) tanto presenciais quanto on-line. São esperados milhares de arquitetos de todo o mundo, que ocuparão e circularão por diversos espaços da capital fluminense (isto é, desde que a vacinação contra a Covid-19 garanta até lá a participação segura dos congressistas de modo presencial).
Será, sem dúvida, um momento significativo para uma cidade ímpar em termos de patrimônio arquitetônico, com edificações exemplares que representam toda a história brasileira, desde o período colonial até os dias atuais, e que se somam a uma paisagem exuberante e singular, mas que vem nos últimos anos sofrendo um processo de decadência econômica e social, mas também política, que aparenta estar longe do fim.
Outro momento marcante em 2021 será a celebração do centenário do Instituto de Arquitetos do Brasil, uma entidade que sempre teve papel determinante na defesa não só da arquitetura e do urbanismo em prol da sociedade brasileira, mas que, em diversas ocasiões, também atuou a favor da estabilidade política e da democracia ao longo dos seus 100 anos de história.
Tirando uma casquinha, no Espírito Santo os arquitetos também têm motivos para se alegrarem, afinal o governo do Estado acaba de anunciar a retomada das obras do Cais das Artes, projeto de Paulo Mendes da Rocha, que reside em São Paulo, mas é capixaba de nascimento, e que hoje é o arquiteto mais premiado do Brasil e finalmente poderá ter uma construção com sua assinatura em sua terra natal.
Neste caso, não somente os arquitetos festejam, mas a sociedade em geral, que terá a sua disposição um equipamento cultural que se espera ser atuante, transformando radicalmente a produção artística local e tornando-se um ícone turístico para a região.
Bom seria, contudo, se tudo fosse apenas festa...
Como muita gente notou e a própria imprensa tem noticiado, a construção civil durante a pandemia puxou a atividade econômica para o alto. Confinados em casa, muita gente aproveitou para fazer a reforma que antes nem estava pensando em fazer. Outros resolveram migrar para condomínios horizontais, de tal modo que a construção de novas casas unifamiliares está a todo vapor. E o mercado imobiliário, que no início deu uma grande freada, em seguida retomou com ritmo intenso, lançando novas unidades, principalmente residenciais.
Isso, porém, não significa que os arquitetos estejam projetando mais do que antes. Na verdade, apenas um pequeno percentual das construções realizadas em todo o país tem a participação de algum arquiteto, sendo muito comum a autoconstrução, tanto nas áreas periféricas das grandes e médias cidades, mas também nos pequenos municípios; muitos deles sequer contam com algum arquiteto e/ou engenheiro no corpo técnico das prefeituras, e assim não possuem nenhum órgão fiscalizador das construções que ocorrem em seus territórios.
Com tanta obra irregular, e como muitos já sentiram na pele, basta uma chuva torrencial para rios arrastarem casas, prédios e tudo mais que tiver pela frente, afinal o projeto daquelas construções não foram elaboradas por profissional qualificado e nem tiveram licença da prefeitura, que, de fato, na maioria das vezes, não teria permitido ocupar tais locais com qualquer tipo de edificação.
Uma esperança recai sobre a ATHIS – Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social. Trata-se de uma lei que prevê o trabalho do arquiteto, por meio de remuneração da sua atividade por órgão público, visando a construção, reforma, reabilitação e até mesmo a regularização fundiária de moradias das famílias de baixa renda. Os arquitetos aguardam ansiosos a regulamentação da lei e a implantação da ATHIS pela maioria dos municípios brasileiros, considerando, porém, que os grandes beneficiados serão as milhões de pessoas que compõe a enorme população que hoje vive em condições indignas em todos os rincões do país.
Os desafios para os arquitetos-urbanistas, diante da realidade da moradia, do caos urbano de cidades mal planejadas, do problema da mobilidade, são enormes, principalmente quando se considera a situação socioeconômica da população, a falta de visão de muitos governantes, entre outros aspectos.
Ainda assim, bom seria se uma parcela dos arquitetos de hoje tivesse uma visão mais humanista da sua formação e do papel desta concepção perante a sociedade brasileira. Se o lado técnico do seu labor é fundamental, não menos importante é o conhecimento em história, teorias artísticas, sociologia urbana e por aí vai... Ou, como disse Peter Burke a respeito do arquiteto romano Vitrúvio, que viveu no século I a.C., pois, “segundo ele, o arquiteto ideal teria conhecimento de literatura, desenho, geometria, história, filosofia, música, medicina, direito e 'astrologia' (que abrangia o que hoje chamamos de ‘astronomia’)”.
Podemos e vamos festejar, discutir, debater, e quem sabe assim, sonhar com um mundo melhor.