Até há pouco tempo, ou, sendo mais preciso, até o ano passado, a principal preocupação da humanidade era o aumento de temperatura do planeta, o chamado “aquecimento global”, em função da emissão de CO2 que, segundo diversas previsões científicas, poderia provocar um colapso social, econômico e ambiental sem precedentes.
Diversas ações e planos, acordos políticos, corroborados por infindáveis estudos, vinham sendo debatidos e aplicados, visando reverter tal tendência.
No âmbito urbanístico, um destes estudos identificou que as cidades médias, o adensamento populacional e a verticalização habitacional são os modelos com menor consumo energético do que o visto nas megacidades e na urbanização horizontalizada com amplas áreas verdes, tal como ocorre, por exemplo, nos subúrbios norte-americanos, bastante recorrentes em filmes hollywoodianos, e aqui no Brasil nos diversos condomínios fechados de classe média alta que vem se espalhando no entorno das médias e grandes cidades país afora.
No modelo vertical e adensado, a população faz uso intenso da mobilidade ativa (deslocamentos a pé ou em bicicleta), mas também do elevador, enquanto na ocupação urbana horizontal e dispersa há muito maior gasto de combustíveis fósseis, pois a população desloca-se majoritariamente em automóveis, entre outros aspectos que contribuem por um pior desempenho energético e que compromete assim o aquecimento global. A relação densidade versus infraestrutura urbana (redes de água, esgoto, energia elétrica etc) também é pior no modelo horizontal e espraiado, o que incide sobre sua menor eficiência energética.
E aí, de uma hora pra outra, esquecemos o aumento de temperatura do planeta e o elevador se tornou um vilão maior do que o automóvel...
Com o isolamento provocado pela pandemia, a atividade industrial e os deslocamentos físicos através de meios de transporte motorizados diminuiu radicalmente, o que vem provocando uma menor emissão de CO2 e, assim se espera, um recuo (momentâneo?) no aumento da temperatura do planeta. Ah, a poluição do ar, que contribui para doenças pulmonares, também se reduzirá (e isso é um ponto importante no âmbito da Covid-19, pois entre os grupos de riscos estão aqueles que já possuem alguma doença crônica respiratória).
Outro efeito imediato da pandemia foi a fuga de moradores urbanos para áreas rurais, principalmente no caso daquelas famílias que já possuíam algum imóvel, sítio ou chácara, a despeito do risco que tal migração provoca para aqueles que já moravam em tais regiões antes do pânico causado pela Covid-19, afinal, muitos dos migrantes atuais podem ter levado consigo o vírus, aumentando a capilaridade do contágio.
Não obstante, a longo prazo, uma das possíveis consequências é a tendência que as pessoas prefiram cada vez mais morar em condomínios residenciais horizontais, com casas térreas ou assobradadas, contendo seu próprio quintal e que, se num primeiro momento nos parece bucólico, como vimos acima, tende a agravar o gasto energético das áreas urbanas, principalmente nas regiões metropolitanas.
Além disso, tal dispersão pode também provocar o aumento do preço médio dos itens de consumo familiares, haja vista que serão necessários deslocamentos maiores entre os pontos de produção, distribuição e consumo. É claro que alguém sempre pode contra argumentar que é possível plantar no próprio quintal de casa, mas sabemos que isso tem valor mais psicoterapêutico, pois não supre as necessidades de subsistência da população em geral. Afinal, ninguém consegue mesmo “cultivar” papel higiênico ou remédio na horta de casa.
De qualquer modo, acredita-se que daqui pra frente mudaremos nossos hábitos de consumo, tornando-o algo mais consciente, com menor aquisição de itens considerados supérfluos, o que também provocará uma readequação na indústria, comércio e economia mundiais.
Se o mundo pós-pandemia pode incentivar a expansão da cidade dispersa, piorando o cenário do aquecimento global, por outro lado, é bem provável que as cidades, principalmente naquelas áreas mais adensadas, se vejam obrigadas a ampliar os espaços públicos verdes, seja por meio de praças ou parques, que permitam um uso coletivo, porém, esparso.
Além disso, segundo previsões da OMS – Organização Mundial da Saúde -, é possível que o coronavírus não possa ser extinto, de tal modo que deveremos manter um relativo estado de distanciamento social de modo perene. Sem pensar agora nas consequências psicológicas desta possibilidade, o fato que o modelo de deslocamentos, isto é, do transporte público urbano de massa, terá que ser revisto de modo radical, sem que tenhamos, no momento, nenhuma ideia de como isso poderá ocorrer.
Ou seja, que nossas cidades sofrerão uma mutação, não há dúvida. Só não sabemos ainda quais serão as formas que resultarão deste processo.