As dicotomias são intrínsecas à história da humanidade. Já no início dela, tínhamos Adão e Eva, que em seguida geraram Caim e Abel. E com os dois irmãos veio logo a primeira das dicotomias responsáveis para transformação dos povos, pois Caim assumiu o papel de agricultor, tomando conta da produção vegetal, enquanto a Abel coube a tarefa de caçar e cuidar dos animais que seriam abatidos para consumo. Assim, Caim teve que fixar residência no território, ao passo que Abel pôde deslocar-se em busca de animais ou levando seu rebanho pelos pastos.
A partir daí veio a segunda dicotomia civilizacional: os povos sedentários, cuja origem é Caim, que fundaram as primeiras vilas e cidades; e os povos nômades, vinculado ao pastoreio de Abel, em constante movimento.
De lá pra cá, tivemos várias outras dicotomias ao longo da história: nobres x plebeus, fiéis x hereges, ricos x pobres. Pode-se até dizer que uma das mais recentes polaridades tenha sido entre o capitalismo e o comunismo, cuja derrocada do segundo no final do século XX, que resultou na expressão “o fim da história” de Fukuyama, nos fez crer que tínhamos chegado a um estágio tal de desenvolvimento que levaria a humanidade a um equilíbrio socioeconômico sem precedentes.
Como se pôde ver, porém, o capitalismo não só tem sido responsável pelo aumento da desigualdade e da concentração de renda em todo o mundo (e não só no Brasil como se costuma pensar), como tampouco foi capaz de criar uma rede de proteção social que desse conta da tragédia provocada pela pandemia que não escolhe lados, pois atinge a todos.
No Brasil, contudo, o confinamento tem despertado uma nova dicotomia: a dos que apoiam e dos que são contra o isolamento social. Mas, se esta polarização já está posta, ainda existe a possibilidade do surgimento de outra categoria dicotômica de pessoas no futuro: as remotas e as presenciais.
O trabalho remoto, que já vinha sendo adotado progressivamente em pequenas doses por várias empresas e até alguns órgãos de governos, teve que ser adotado de maneira radical de uma hora pra outra de modo hegemônico. Junto com ele, o ensino à distância (EAD), visto com desconfiança por uns e aplicado exaustivamente por outros, entrou de vez como alternativa educacional, haja vista a paralisação das atividades escolares presenciais. Por fim, um segmento que já estava consolidado e que agora explodiu: o e-commerce (compras virtuais), com destaque para o serviço de entregas de alimentos.
Enquanto isso, muitos são aqueles que não têm a opção em ficar em casa remotamente, pois realizam trabalhos essenciais que demandam a presença física, que todos sabem quais são, mas não custa citar alguns aqui: médicos e enfermeiros plantonistas, bombeiros, policiais ou mesmo funcionários de supermercados, farmácias, postos de gasolina, ou ainda, caminhoneiros, garis etc.
Entre estes e outros mais, convém também separar os que, caso estejam em casa, certamente possuem computador com internet banda larga e estão familiarizados com atividades realizadas on-line, e os que mal conseguem pagar o aluguel.
É razoável pensar que daqui pra frente o teletrabalho, o ensino à distância e o e-commerce serão tendências irreversíveis, pois muitas pessoas que antes não faziam uso dessas ferramentas, acabarão se acostumando e vendo vantagens nelas.
De fato, em muitos casos, o trabalho remoto tem se mostrado altamente produtivo, com vantagens para o empregador e com ganho de qualidade de vida para o trabalhador, pois o tempo economizado no trajeto casa-trabalho acaba sendo dedicado à família, à saúde e assim por diante.
Algo parecido ocorre com o EAD, ainda que as vantagens no momento estão se mostrando melhores para as instituições de ensino que já o adotam, pois significa uma economia de gastos com professores, incluindo uma maior capilaridade das atividades pedagógicas. Já no caso das compras on-line, se sabe que quase tudo comprado pela internet é mais barato do que nas lojas físicas.
Ficar em casa, fazendo tudo dali mesmo, e sem o risco que a vida nas ruas impõe às pessoas, é disso que estamos falando?
A resposta, porém, vem com outra indagação: a cisão entre uma sociedade urbana remota e outra presencial poderá ter impactos profundos nos relacionamentos sociais, criando movimentos discriminatórios ainda maiores do que aqueles que já temos visto na Europa e EUA (por conta da imigração) e no Brasil (em função da desigualdade social entre ricos e pobres)?