Quem gosta de futebol como eu, que pude frequentar o Maracanã na minha juventude, na alegria e na tristeza, sabe muito bem que ver um jogo pela televisão, mesmo com todos os recursos tecnológicos atuais – aparelhos gigantes de led, câmeras de última geração usadas pelas emissoras que captam tudo, replays, vídeos animados analisando as jogadas, as reportagens de bastidores em tempo real etc – não tem a mesma emoção, ainda que seja uma experiência bem mais barata, confortável e que não nos deixa perder nenhum detalhe do jogo.
Num estádio, muitas vezes nos distraímos e até perdemos o chute ou a cabeçada que resultou num gol, ou o lance que gerou o pênalti, mas nada disso é tão importante como estar no meio da bagunça, euforia e agitação provocadas pelos gritos ou vaias das torcidas.
E assim também é pra quem adora um show de rock, principalmente aqueles mega concertos, como foram os dos Rolling Stones, The Police, Roger Waters, Eric Clapton, entre outros. Este último, por exemplo, o Deus – “Clapton is God”, tal como apareceu espalhado por Londres – foi um que tive a sorte de ver num show memorável, incrível, extraordinário, mas também o azar de pegá-lo num dia ruim, decepcionante, cujo concerto é pra ser esquecido, o que de fato nunca é, ou seja, mesmo querendo, não sai da nossa memória.
E é isso que a experiência direta nos faz, nos dá momentos célebres, inesquecíveis, sejam eles bons ou ruins. E claro, isso não significa que ver um show numa tela de TV não seja legal, óbvio que é, mas não tem a mesma emoção do que ao vivo, com todo o perrengue que é ir até o local, chegando com boa antecedência, tendo que enfrentar filas para comprar uma cerveja ou até ir ao banheiro, fora o cansaço... Mas tudo isso faz parte daquelas lembranças que marcarão nossas vidas.
Agora, contudo, devido ao confinamento provocado pelo coronavírus, fomos obrigados a trocar todas as nossas experiências presenciais por eventos virtuais, que vão desde a visita a museus, espetáculos em tempo real às festas virtuais. Será um caminho sem volta?
Fazendo de novo referência à música, lembro-me do debate acerca da perda da qualidade quando, graças ao avanço tecnológico, trocamos o vinil pelo CD. A inferior escala sonora do CD era, na opinião de muita gente, uma desvantagem pequena em comparação à sua praticidade.
E quanto ao cinema? É certo que muitos são os que ainda frequentam as salas escuras com telas enormes medindo dez metros de altura por 15 metros de largura e diversos canais sonoros surround, mas estamos cada vez mais acostumados a ver os mesmos filmes nas telas de celulares cujo tamanho não passa de 15 centímetros de largura (e pra quem também já está acostumado com a praticidade das máquinas de calcular, aí vai, no nosso caso, a tela do cinema é 100 vezes maior que a do smartphone).
É claro que à medida que os avanços nas interfaces da realidade aumentada forem chegando ao mercado, a experiência em vivenciar atividades por meio dos dispositivos será cada vez mais semelhante ao mundo real.
Mas será que isso valerá para tudo? Até que ponto poderemos substituir nossas experiências reais, ainda que muitas vezes arriscadas, incertas, pelo mundo virtual?
Hoje é bastante comum encontrarmos vários programas televisivos sobre viagens, na maioria das vezes com alguém visitando um lugar incrível, maravilhoso, espetacular e que, por meio da tela da TV, tenta nos transmitir o prazer de quem pode estar ali, enquanto nós estamos aqui, bem longe, às vezes com inveja, às vezes simplesmente sonhando que um dia iremos lá também.
Mas será que, a partir de agora, nos contentaremos em substituir as viagens por experiências sensoriais virtuais? Ou, sendo mais preciso, será que nunca mais teremos o desejo em viajar para lugares como a Itália, Espanha ou Paris, que foram profundamente afetados pelo coronavírus? Enfim, o que sobrará da indústria do turismo nos lugares mais afetados pela covid-19?
Basta ver o que aconteceu com o Copacabana Palace, provavelmente o hotel mais famoso do Brasil que, pela primeira vez em sua história, fechou as portas por causa da pandemia.
O mundo já passou por várias eras, diversas revoluções, e certamente todos já sabem que estamos diante do início de uma nova etapa da história humana.
Será que teremos que viajar daqui pra frente apenas pelos olhos dos outros?