“As ciências, cada uma delas seguindo uma direção diferente, até agora há pouco nos prejudicaram; mas em algum momento, quando encaixarmos as peças separadas do conhecimento, teremos revelada uma aterrorizante visão da realidade e de nossa desditosa posição nesse panorama, e, diante disso, ou enlouqueceremos ou abandonaremos a luz para buscar abrigo na paz e na segurança da nova idade das trevas.” (O chamado de Cthulhu, H. P. Lovecraft)
Uma das vibrantes lembranças que tenho da minha infância, quando comecei a me interessar por futebol, foi o Marinho Chagas, lateral esquerdo do Botafogo, arrebentando na Copa do Mundo de 1974. Foi algo que vi pela TV que tínhamos na sala de casa. Antes disso, não tenho muitos fatos guardados na memória, afinal, eu só tinha nove anos na ocasião.
E aí, fiquei sabendo que na Copa de 1970 a Seleção Brasileira inteira arrebentou e foi campeã mundial com um time que encantou todos aqueles que viram os jogos, ainda que boa parte da população brasileira sequer tivesse televisão na época. Ou seja, mesmo sem ver os jogos, o povo comemorou muito o título com estrondosa alegria, independente do Brasil estar sob os piores anos da ditadura militar.
A situação acima revela um curioso paradoxo: quem não pôde ver os jogos do Brasil, não teve dúvidas da vitória da seleção. Por outro lado, apesar de todas as evidências, ainda há quem ache que não houve ditadura no Brasil naquele mesmo momento histórico.
Convencionalmente, relaciona-se a “idade das trevas” à Idade Média que, como se sabe, é o período histórico após a queda do Império Romano. A degradação econômica e cultural da Europa é a justificativa para a associação entre treva ou escuridão, enquanto os períodos precedente e posterior consistiriam em épocas iluminadas, dominadas por um racionalismo científico e com grandes avanços técnicos e artísticos.
Uma espécie de obscuridade ou ignorância dominava boa parte da população europeia medieval, que chegava a desdenhar de verdades históricas ou fatos científicos. Para aquelas pessoas, não havia nada além do que se podia ver, nada existia além da linha do horizonte do mar ou da floresta que recobria as montanhas.
Hoje, sabemos disso tudo (Império Romano, Idade Média, Copa do Mundo etc.) graças à história, disciplina fundamental ao conhecimento humano, e que agora se vê ameaçada por certos grupos que, ao fazê-lo, se mostram tementes à liberdade que é a razão humana.
Por extensão, quem nega a história, é o mesmo que não acredita no que não vê, e, portanto, acha que o mundo acaba no horizonte do mar ou na floresta que recobre as montanhas. Enfim, é alguém que tampouco acredita na ciência, uma disciplina fundamental ao conhecimento humano, e que agora se vê ameaçada por certos grupos que, ao fazê-lo, se mostram tementes à liberdade que é a razão humana. É importante insistir nisto!
Não preciso levar um tiro para saber que dói. Não preciso ver um vírus para saber que mata. Pra isso existe conhecimento, informação.
Informar é uma atribuição da imprensa, uma atividade fundamental ao conhecimento humano, e que agora se vê ameaçada por certos grupos que, ao fazê-lo, se mostram tementes à liberdade que é a razão humana.
A imprensa registra fatos que se tornam documentos históricos. À imprensa cabe também a divulgação de fatos e descobertas científicas. Já a história nos ensina que os processos são cíclicos, com avanços e retrocessos.
Olhando pra trás, ainda é difícil de acreditar que após o grande salto que foi a Modernidade, com todos os avanços técnicos, científicos, artísticos e, por que não?, filosóficos obtidos na virada do século XIX para o XX, a Alemanha instauraria o nazismo, a Itália o fascismo, a Espanha e a Rússia cairiam sob a dureza de Franco e a de Stalin, respectivamente, e o mundo nunca mais seria o mesmo. Mas é fato que períodos marcados pelo despotismo sempre existiram, e, infelizmente, sempre corremos o risco de voltarmos a vê-los.
Outra lembrança que tenho daqueles anos em que comecei a me interessar por futebol, vendo programas como “Shazan, Xerife e Cia”, foi a determinação dos meus pais em que eu e meus irmãos tivéssemos uma boa formação escolar. Acho que o esforço deles valeu a pena, pois hoje sei que não há nada mais clarividente do que o conhecimento.
Se a felicidade é importante e desejável, ela também é relativa e indeterminada, ao contrário do conhecimento, condição individual indelével, insubstituível e libertária.