“De minha parte, estou convencido de que o mundo certamente seria um lugar 100 vezes melhor para viver atualmente se a humanidade tivesse a chance de, vez por outra, descartar toda tradição e história e começar de novo sem ideias convencionais, sem chavões e opiniões que estorvassem o nascimento de um mundo totalmente novo.” (O visitante noturno, B. Traven)
Todos já sabemos que nosso modelo de sociedade sofrerá mutações a partir da pandemia, com consequências, entre outras, nos hábitos de consumo e na própria habitabilidade, que se refere ao lugar onde moramos e passamos a maior parte da nossa vida, isto é, a nossa casa.
Afinal, de uma hora pra outra, quase todas as ruas das cidades do mundo se viram esvaziadas porque as pessoas se viram confinadas em suas moradias. E o que poderia ser uma sinopse de um filme de ficção científica, catastrófico, pós-apocalíptico, tornou-se realidade. E, nesta realidade, cujo confinamento se deu de modo repentino, enjaulando-nos em nossas casas, sem poder nos mover, durante semanas, quem sabe meses?, tivemos que redescobrir nosso lugar, cada canto dele, requalificando pequenos espaços que até então se mostravam escondidos, disfarçados, desprezados...
Foi-se o tempo em que, no final de uma jornada de trabalho, sentíamos saudade da nossa moradia, doidos para lá chegarmos, para descansar e desconectar. Agora, ao contrário, tudo que muitos de nós gostaríamos era poder sair de casa e ir pro trabalho, pra rua, pras praças...
Mas foi justamente graças a tal situação que passamos a ver a nossa casa de modo distinto. O espaço doméstico adquiriu uma nova e especial percepção, pois nos demos conta da sua importância para a vida, para nossa rotina, para o nosso cotidiano, e que nada mais é do que aquilo de mais valioso que temos, reconhecendo que agora nada tem tanta importância quanto estar vivo. Enfim, é preciso viver, mas, na medida do possível, viver bem! E a residência que nos abriga tem papel determinante nisso.
Ao longo das semanas do confinamento, vimos imagens de pessoas ao redor do mundo cantando, tocando música, celebrando aniversário, entre outras atividades recreativas, todas elas filmadas em varandas de apartamentos, que se tornaram assim o espaço de sociabilidade do mundo atual.
No Brasil, os empreendimentos imobiliários destinados às classes média e, principalmente, alta, há muito tempo já incluíram as varandas como item indispensável nos condomínios residenciais. De qualquer modo, de acordo, por exemplo, com a legislação urbanística e o clima (incluindo a orientação solar) de cada cidade, tais espaços adquirem características próprias.
Há casos em que as varandas se tornaram ambientes generosos, que incluem diversos equipamentos de apoio, como bancadas, cooktop, adegas etc e que permitem a confraternização dos moradores com seus convidados (algo que, pelo menos por enquanto, não vem ocorrendo por causa do isolamento), configurando o que se convencionou chamar de varanda gourmet.
Mas há também varandas que não passam de um pequeno balcão, tal como se vê em muitas cidades europeias, e que aqui, no Brasil, acabam sendo espaços residuais, muitos deles ocupados por varais de roupas, brinquedos da criançada ou bicicletas.
Outra tendência recente no mercado imobiliário brasileiro foi o encolhimento da área dos apartamentos, tendo como contrapartida (bastante conveniente financeiramente aos empreendedores) a oferta de vários itens de convivência condominial, como espaços gourmet, salões de festa, academias, áreas de lazer contendo piscina, quadras, churrasqueiras, playground etc. Condomínios com dezenas, às vezes centenas de apartamentos ou casas, com espaços coletivos de lazer e convivência e que agora, em função da pandemia, não podem ser usados, encontram-se fechados, vazios...
Com o encolhimento das áreas privativas, alguns apartamentos se reduziram ao mínimo em termos de habitabilidade, cujas plantas sequer permitem layouts variáveis, a despeito dos diversos modos de habitar, da diversidade familiar, enfim, da individualidade e dos gostos pessoais de cada pessoa e de cada família.
Muito se tem falado dos possíveis danos psicológicos que o confinamento poderá causar na população em geral. Não resta dúvida que o ambiente residencial pode contribuir favorável ou negativamente para a maneira como cada um lida com tal situação.
Caberá aos arquitetos e empreendedores imobiliários pensarem em como será a moradia daqui pra frente, pensando não só em sua habitabilidade, mas também na saúde mental e o prazer de viver em ambientes residenciais edificados. E, no caso das moradias de interesse social, para a população de baixa renda, o papel do poder público (governo federal, prefeituras, Ministério Público, Caixa) e de instituições como CAU e IAB será determinante em prol deste novo modelo residencial.