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Fabrício Ceccato Borgo

Artigo de Opinião

É servidor público estadual que utiliza a bicicleta elétrica como transporte para o trabalho e o lazer
Fabrício Ceccato Borgo

Bikes elétricas: automóveis também encontraram resistência social quando chegaram às ruas

Praticamente todo modal de transporte passou por processo semelhante de resistência social, adaptação urbana e aumento inicial de ocorrências conforme sua presença crescia nas ruas
Fabrício Ceccato Borgo
É servidor público estadual que utiliza a bicicleta elétrica como transporte para o trabalho e o lazer

Publicado em 16 de Maio de 2026 às 10:00

Publicado em 

16 mai 2026 às 10:00

O avanço das bicicletas elétricas e dos veículos elétricos leves no Brasil reacendeu um debate antigo da mobilidade urbana: até que ponto um novo modal pode ser responsabilizado pelo aumento de acidentes envolvendo sua própria expansão?


Nos últimos anos, especialmente entre 2020 e 2026, houve crescimento expressivo da circulação de bicicletas elétricas no país, impulsionado por fatores como mobilidade urbana, redução do tempo de deslocamento, custo operacional mais baixo e busca por alternativas ao transporte tradicional. Paralelamente, aumentou a repercussão de acidentes envolvendo esses veículos, especialmente nas redes sociais e na cobertura jornalística.


O fenômeno, contudo, não é exatamente novo na história da mobilidade.

Bike elétrica
Jovem conduz bicicleta elétrica sem equipamentos de segurança Fernando Madeira

Historicamente, praticamente todo modal de transporte passou por processo semelhante de resistência social, adaptação urbana e aumento inicial de ocorrências conforme sua presença crescia nas ruas. 


O automóvel, por exemplo, também enfrentou questionamentos desde o início do século XX, período em que o Brasil ainda possuía vias precárias, majoritariamente de terra e sem estrutura adequada para circulação motorizada intensa.


Do ponto de vista lógico e estatístico, acidentes envolvendo determinado meio de transporte somente passam a existir após a existência concreta e circulação daquele próprio modal. Não havia acidentes automobilísticos antes da existência prática dos automóveis, assim como não existiam acidentes aeronáuticos antes do surgimento de aviões capazes de voo operacional.


A mesma lógica pode ser aplicada às bicicletas elétricas e aos demais veículos elétricos leves. O crescimento da frota e da circulação aumenta naturalmente a exposição ao risco e, consequentemente, a possibilidade de aumento absoluto de ocorrências envolvendo esse modal.


Isso, porém, não significa que o veículo, isoladamente, seja o responsável pelos acidentes.

Especialistas em mobilidade e estudos históricos sobre trânsito demonstram que acidentes costumam resultar de múltiplos fatores combinados, incluindo comportamento humano, infraestrutura urbana, fiscalização, sinalização, regulamentação, engenharia viária e adaptação social ao novo meio de transporte.


Nesse contexto, atribuir exclusivamente ao modal a responsabilidade pelos acidentes pode representar uma simplificação excessiva de um fenômeno complexo.


Outro ponto frequentemente ignorado no debate público é que a mobilidade elétrica leve não se resume apenas a conveniência ou lazer. Bicicletas elétricas, patinetes, triciclos e scooters elétricas também vêm se consolidando como importantes instrumentos de acessibilidade e autonomia para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.


Para parte dessa população, esses veículos representam:


  • possibilidade de deslocamento independente; 

  • redução de limitações físicas impostas pelo esforço mecânico; 

  • maior integração urbana; 

  • ampliação do acesso ao trabalho, estudo e lazer; 

  • e diminuição da dependência de terceiros ou de sistemas públicos frequentemente inacessíveis.


Em muitos casos, a assistência elétrica permite que pessoas que não conseguiriam utilizar uma bicicleta convencional passem a se deslocar com maior autonomia e dignidade no espaço urbano.


O debate também evidencia um desafio recorrente das cidades contemporâneas: a dificuldade histórica de adaptação da infraestrutura urbana às transformações da mobilidade. Durante décadas, o planejamento viário brasileiro foi fortemente direcionado ao automóvel, frequentemente deixando em segundo plano pedestres, ciclistas e meios alternativos de deslocamento.

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Na Grande Vitória, por exemplo, a própria construção das pontes metropolitanas simboliza esse direcionamento histórico da infraestrutura. A Segunda Ponte e a Terceira Ponte foram concebidas prioritariamente para o fluxo de veículos automotores, sem previsão adequada de travessia para pedestres. 


A chamada Ciclovia da Vida, conectando Vitória e Vila Velha, só foi inaugurada mais de três décadas após a abertura da Terceira Ponte, evidenciando como a mobilidade ativa e os deslocamentos não motorizados permaneceram durante anos em posição secundária no planejamento urbano regional.


Mesmo após a inauguração da ciclovia, persistem debates e restrições relacionadas ao uso de bicicletas elétricas e veículos autopropelidos, inclusive modelos não dotados de pedal assistido, ou não, em um cenário que ainda demonstra dificuldade institucional e regulatória em compreender plenamente as características técnicas e a função urbana dos novos veículos elétricos leves.


A chegada de bicicletas elétricas, patinetes e outros veículos leves elétricos intensifica essa disputa por espaço urbano e expõe lacunas regulatórias e estruturais ainda não resolvidas.

Ao mesmo tempo, a forte repercussão de acidentes envolvendo novos modais tende a produzir respostas emocionais da sociedade. Historicamente, tecnologias recentes costumam receber maior atenção pública e midiática, especialmente quando associadas a episódios de risco ou conflito urbano.


O desafio, portanto, parece não estar apenas na existência do novo modal, mas na capacidade coletiva de integrar tecnologia, infraestrutura, acessibilidade, educação viária e convivência urbana em um cenário de transformação acelerada da mobilidade contemporânea.

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