Thalles Contão é psicólogo clínico, existencialista, marido, pai, filho e humano, demasiadamente humano

Não deixe ninguém te fazer acreditar que o errado é certo

Quem engana os outros não é esperto, safo ou inteligente; é só alguém sem presença de caráter

Publicado em 27/01/2021 às 02h00
Atualizado em 27/01/2021 às 02h03
Decepção amorosa
Traição, quebra de confiança. Crédito: shutterstock

Tive uma decepção muito grande com uma pessoa a quem ofertei carinho e acolhimento. Tô me sentindo muito mal comigo mesmo, sinto que fui um idiota! Estou me sentido um lixo! Como me livro desta sensação? T.

Caro leitor... só há uma maneira de se livrar dessa sensação: desafiar-se a entender onde você realmente foi idiota. Mas, antes, posso te levar a pensar: o que culturalmente definimos como idiota? O que você acha que é ser um idiota?

Para ganharmos tempo, não vou discorrer sobre o significado real do termo. Para isso, incito a curiosidade dos leitores. Mas, meu amigo, todos nós sabemos o que popularmente significa idiota, que seria o também popular "trouxa". Numa definição mais precisa ainda, seria o "burro" ou incapaz intelectualmente.

Caro leitor, sentir-se um "lixo" e idiota na definição exposta é a junção que torna possível sua libertação deste sentimento através da análise da realidade envolvida. Você claramente está se sentindo inferior à pessoa que, na sua concepção, provocou a situação. Ou seja, você acha que é menor por, curiosamente, ter sido moralmente superior e isso, pelo que representa, se tornou um problema apenas seu.

A coisa mais coerente do ponto de vista psicológico do seu enunciado é a sua decepção. Porque, sim, decepção é uma razão para amargar um dissabor emocional. Porque ela envolve uma frustração de expectativas e uma "porrada" no sentimento. Porque na balança da alma, a decepção é um peso desproporcional. Sentir-se triste com uma decepção não é uma obrigação, mas é uma consequência imediata padrão.

Meu amigo, no seu caso fica claro que, por imaturidade emocional, talvez até por uma personalidade mais romântica, você usa a tristeza da frustração para massagear um risco no seu ego de sentir-se menor que a pessoa que você acaba considerando esperta por te enganar.

Caro leitor, quem engana os outros não é esperto, safo ou inteligente. É só alguém sem presença de caráter - este último um sinal de maturidade. Cedo ou tarde, crendo você ou não, pela circularidade existencial, o padrão decisório levará esta pessoa a colher consequências nocivas da sua esperteza.

Não deixe, meu amigo, a cultura quilingue te fazer acreditar que o errado é certo, porque é, aparentemente, vantajoso. E que isso te torna, mesmo sendo correto, o trouxa da história. Porque é isso que, de maneira infantil, está desenvolvendo. Está alimentando um sentimento de que ser superior é sempre ganhar - e que você é uma vítima disso.

Te sugiro, meu amigo, olhar para sua história e para o testemunho sobre você. Aposto que está decepcão é episódica, não é?! Que no seu caso, você não costuma, como outras pessoas, ter este padrão. Sua expectativa é frustração assegurada, mostra que foi um surpresa perceber o óbvio: às vezes pessoas usam pessoas.

Se quer se livrar da decepção, aceite-a. Sofra está dor que, de fato, será passageira. Se quer saber quem é você, peça o testemunho de quem te cerca e, nesse momento, perceberá que não é alguém alvo de tanto desamor. Mas se realmente quiser uma vida melhor e se quiser ter força para enfrentar a realidade sendo o que ela é, olhe para este incômodo e perceba que a única coisa essa pessoa te fez no mundo real foi o favor de tirar do seu caminho alguém que poderia fazer, por potencial, algo pior do que te decepcionar.

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