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Cientista político e professor da USP, José Álvaro Moisés
Entrevistado

"A polarização criou uma dinâmica que não é positiva para a democracia"

Cientista político e professor da USP, José Álvaro Moisés aponta que  focar os debates em torno de Bolsonaro prejudica as discussões sobre políticas públicas

Cientista político e professor da USP, José Álvaro Moisés
Publicado em 28/09/2020 às 14h47

A disputa municipal deve ficar marcada, em algumas cidades, entre quem defende e quem se opõe ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), acredita o cientista político José Álvaro Moisés, professor da Universidade de São Paulo (USP). Mas em função da pandemia de Covid-19, a tendência apontada pelo pesquisador é que, para além do bolsonarismo, temas nacionais, como desigualdade social e crise financeira, tenham tanto apelo quanto questões locais.

VEJA A ENTREVISTA COMPLETA:

Por que temos visto candidatos apostando em se colocar como quem defende ou quem se opõe a Bolsonaro?

O próprio presidente incentivou essa polarização a favor e contra. Como ele e seus apoiadores se colocaram em uma posição de confronto com todos que pensam diferente, se criou essa dinâmica de polarização que é da política nacional, mas que está se traduzindo nas eleições municipais, porque muitos candidatos querem o apoio dele, outros querem evitar o apoio, por causa da rejeição que ele tem com uma parte dos eleitores.

Isso pode atrapalhar ou desvirtuar os debates locais?

Não acredito que vai deixar os temas locais em segundo plano, pois mesmo os eleitores que têm uma visão dos problemas de sua cidade, segurança, mobilidade, saúde, educação, com a pandemia se deram conta que o papel do Estado brasileiro é muito importante para resolver coisas dessa gravidade. Então a conjuntura dessa eleição é excepcional, diferente de qualquer outra eleição municipal, nós temos uma grande tragédia nacional. Por causa disso, o eleitor vai lembrar aos candidatos que tem o desemprego, renda, a necessidade de cuidar dos afetados pela pandemia. Não é uma circunstância que alguém escolhe, é uma decorrência da conjuntura, que cruzou os temas nacionais e os locais.

Não é a primeira vez que candidatos locais tentam vincular sua imagem a lideranças nacionais. Mas o que tem de diferente nesse pleito?

É uma decorrência natural da política tentar se alinhar ao presidente. Mas a diferença é que o cenário de agora é alimentado por uma polarização e o próprio o presidente que criou, porque entende que assim consegue manter os apoiadores em um nicho muito identificado para disputar a reeleição. Em um discurso de Bolsonaro entre o primeiro e o segundo turno em 2018, dirigido a eleitores que o apoiavam, em São Paulo, ele fez uma ameaça de que pessoas que pensavam diferente deviam ser mandadas para fora do país. É muito grave isso. Há uma sequência de fatos e gestos dele que criam essa situação, de "nós" e "eles". "Nós" somos os puros, corretos, que cuidam da família. E "eles", têm referência a algo que inclusive não existe mais, que é o comunismo.

Como isso ganhou tanta importância?

Porque os outros atores da política reagem. Alguns a favor, apoiando a polarização proposta pelo presidente, e outros contra, afirmando que o governo errou no combate à Covid-19, ameaça os direitos humanos, é contra os índios, contra mulheres, negros. E não é só o Bolsonaro que vai ser chamado a influir nas eleições, o Lula também vai ser, e talvez alguns outros ex-candidatos. Porque se busca referência naquilo que tenha recall, do ponto de vista de pesquisa, para apoiar sua candidatura.

Quais são os impactos para a democracia?

A polarização criou essa dinâmica que não é muito positiva para a democracia. No sistema democrático, com polarização e esse confronto estritamente de figuras da política, retira-se o conteúdo do debate sobre políticas públicas. Pesquisas do Ibope e do Datafolha mostram que o problema que as pessoas mais esperam solução nessas eleições é o da saúde, representando cerca de 40%. Então em vez de se discutir quais são as boas políticas públicas, em vez de os candidatos serem conduzidos a indicar qual será a responsabilidade de sua cidade para enfrentar esse problema, podem correr o risco de ficar em um confronto a favor e contra Bolsonaro e o que ele representa, o que tem um efeito negativo para a democracia brasileira.

Nas eleições municipais, as pessoas votam por ideologia?

As pessoas sempre votam sobre as propostas que fazem sentido para elas, contra os que não têm essas propostas. Definir se é ideológico ou não é uma decisão mais analítica do que como as pessoas se comportam. Há as pessoas que vão tender a apoiar candidaturas que se dizem progressistas, pois querem reformas, melhorar a economia, criar empregos, ter políticas sociais. E outras pessoas procuram o candidato que se diz conservador, preocupadas com costume, com a segurança pública, com a ordem, com a lei. Isso tem uma dimensão ideológica, mas o eleitor não está estritamente condicionado por esse tipo de perspectiva. Em grande parte isso vai depender de como será conduzida a campanha eleitoral.

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