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Polarização política provocou aumento de mortes por Covid, diz estudo

Trabalho avaliou países europeus, mas também remete ao que ocorre no Brasil. Diferença no excesso de mortes entre duas regiões,uma sem polarização e outra com níveis altos é cinco vezes maior

Publicado em 19/01/2021 às 14h40
Distribuição e vacinação na Grande Vitória
Data: 19/01/2021 - ES - Vitória - Idosos e cuidadores do Asilo de Vitória recebem vacina contra Covid-19 - Editoria: Cidades - Foto: Fernando Madeira - GZ. Crédito: Fernando Madeira

A polarização política aumenta a mortalidade pela Covid-19. A conclusão está em um novo estudo científico que mostra, pela primeira vez, uma correlação direta entre o número de mortes pelo novo coronavírus e o recrudescimento do populismo e da intolerância. O trabalho foi feito somente em países da Europa. Mas remete ao que ocorre no Brasil. Aqui, mais de 200 mil pessoas já morreram vítimas da doença. O presidente Jair Bolsonaro, porém, insiste em defender tratamentos sem comprovação científica - depois de meses de críticas às vacinas e ao isolamento social.

"Uma maior polarização social e política pode ter acabado por custar vidas durante a primeira onda de covid na Europa", conclui o estudo. O trabalho avaliou a correlação entre as mortes e a polarização política em 153 regiões de 19 países da Europa. "Observamos que maiores níveis de polarização indicam um número de mortes significativamente maior. Por exemplo, a diferença no excesso de mortes entre duas regiões, uma sem polarização das massas (2,7%) e outra com níveis máximos (14,4%), é mais de cinco vezes maior."

O estudo é assinado por Víctor Lapuente, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), e Nicholas Charron e Andrés Rodríguez-Pose, da London School of Economics. O trabalho está em processo de publicação no esquema pré-print, na revista da Universidade de Gotemburgo.

Os autores propõem três mecanismos que explicariam esse fenômeno O primeiro é que é mais difícil nas sociedades polarizadas a construção de consenso político sobre as medidas sanitárias a serem adotadas. Outro é que as prioridades são definidas em função das exigências dos grupos de pressão (empresários, por exemplo), em detrimento da saúde pública. O terceiro é que, com a polarização as políticas se tornam mais populistas e menos baseadas em critérios de especialistas.

Os três mecanismos propostos no estudo são facilmente identificáveis no Brasil, dizem especialistas ouvidos pelo Estadão. Alguns exemplos são a defesa de tratamentos sem comprovação científica, pelo presidente e pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Outro é o questionável exemplo dado por Bolsonaro ao insistir em não usar máscara e ao provocar aglomerações. Há ainda as críticas infundadas às vacinas em desenvolvimento e o embate do presidente com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

"Desde o início estamos lidando com um negacionismo movido por pretensões políticas, pela vontade de agradar aos próprios eleitores, de se manter fiel a um tipo de discurso eleitoreiro", resumiu a microbiologista Natália Pasternak, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Instituto Questão de Ciência. "A gente viu o presidente negando a gravidade da pandemia e politizando a questão dos remédios que toda a comunidade científica sabia que não funcionavam."

Na análise de Natália Pasternak, o discurso político do governo brasileiro está desconectado da realidade. "Não interessa se tem gente morrendo; nesse tipo de discurso político só interessa quem chegou na frente, quem fez a melhor vacina", disse. "É uma completa desconexão com a realidade."

No estudo europeu, a polarização é entendida como "tribalismo identitário" e "animosidade contra o outro". Há clara divisão entre apoiadores e opositores do governo. Por isso, o uso de máscara é muito menor entre os apoiadores de Jair Bolsonaro, e o isolamento social foi mais respeitado pela oposição.

Outro artigo, publicado na "Nature Human Behaviour", aponta "uma forte associação entre os níveis de animosidade partidária dos cidadãos e suas atitudes sobre a pandemia, assim como as ações adotadas em resposta a ela". Outro artigo, na "Science Advances", é ainda mais taxativo: "O partidarismo é um determinante muito mais importante da resposta de um indivíduo à pandemia que o impacto da covid-19 na comunidade desse indivíduo "

A cientista política Sara Wallace, da Universidade da Califórnia, estudou essa relação nos Estados Unidos de Donald Trump. Lá, a polarização política determinou muitas das práticas adotadas na pandemia.

"Em circunstâncias de alta desinformação e falta de informação, as pessoas observam os exemplos; só podemos ser racionais se os nossos líderes forem racionais", argumentou a especialista em seu trabalho. "Os americanos interpretam a pandemia de uma maneira fundamentalmente partidária, e as condições objetivas da pandemia desempenham, quando muito, um papel menor na configuração das preferências das massas."

Analisando o trabalho de Lapuente para o jornal espanhol "El País", a professora da Universidade do País Basco Arantxa Elizondo explicou que duas questões centrais atrapalham a resposta científica à pandemia. São elas o medo da paralisação econômica e a busca por uma rentabilidade eleitoral.

"Isso não só é uma falta de humanidade, mas também um erro colossal", disse a especialista espanhola. "Sendo assim, a polarização custou vidas. É grave que muitíssimas pessoas que morreram poderiam ter sido salvas com outra atitude. Isso mostra também que é mais difícil mudar o comportamento humano do que conseguir desenvolver uma vacina em menos de um ano."

Para os especialistas brasileiros, o maior desafio agora será convencer o maior número possível de pessoas a se vacinar contra a covid-19. Isso exige enfrentar o discurso negacionista e o consequente crescimento dos movimentos contrários às vacinas.

"Nosso maior desafio agora será convencer as pessoas a se vacinar; quanto maior a polarização e a desconfiança das lideranças políticas, maior a dificuldade de adotar medidas de forma ampla", afirmou a epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). "Efetivamente temos vacinas para 5 milhões de pessoas, o que não cobre nem todos os profissionais de saúde. Acho que vamos ter um primeiro semestre dificílimo porque dependemos da produção das vacinas e do convencimento das pessoas para irem se vacinar ou vamos ficar numa situação bem complicada."

Natália Pasternak concorda. Ela lembra ainda que a população brasileira, tradicionalmente, sempre foi favorável às campanhas de vacinação. "Agora, estimulado pelo próprio presidente, estamos vendo o crescimento do movimento antivacina", disse. "Precisamos vacinar mais de 90% da população; precisamos convencer as pessoas a tomarem a vacina e voltarem para tomar a segunda dose; precisamos convencer as pessoas a continuarem a usar máscara; ou seja, precisamos de uma campanha de comunicação muito robusta, de transparência e clareza. Como vamos conseguir isso no meio de toda essa polarização?", questiona.

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