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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

A paisagem que nos rodeia é um dos maiores bens que possuímos

Somos frutos da nossa terra, e por ela devemos zelar. Simples assim

Publicado em 04/02/2021 às 02h00
Atualizado em 04/02/2021 às 02h01
Fim de tarde visto a partir da Ponte de Camburi com paisagem para Ponte Ayrton Senna
Fim de tarde em Vitória: o que importa mesmo é a evasão da mente por meio da contemplação de diversas paisagens. Crédito: Fernando Madeira

“O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara / O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela (...) É chegada a hora da reeducação de alguém / Do Pai do Filho do Espírito Santo amém (...) O rei está nu, mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu” ("O Estrangeiro", Caetano Veloso)

A paisagem que nos rodeia, que forma o cenário onde vivemos, sonhamos, trabalhamos, desfrutamos, sofremos, sorrimos, choramos, brincamos, procriamos, mesmo sem um valor mensurável, é um dos maiores bens que possuímos. Infelizmente, tal conceito parece não ser corroborado ou compreendido por uma parte da parcela da população que nela vive, incluindo aí, certos políticos e administradores públicos.

Tampouco se pode conceber a ideia que a paisagem tem algum valor monetário. Não se trata disso. Somos frutos da nossa terra, e por ela devemos zelar. Simples assim.

O certo é que a paisagem é mutável, dinâmica, encontrando-se todo o tempo em movimento; trata-se, enfim, de algo vivo e por isso está sempre em transformação. Vejamos por exemplo o céu ou o mar. O céu do amanhecer é diferente ao do entardecer; um dia ensolarado de inverno é bastante distinto de um dia de verão com nuvens carregadas.

E o mesmo tipo de associação podemos fazer em relação ao mar: a maré baixa com águas tranquilas, e que é distinta da maré alta, agitada, e assim por diante, águas claras, águas revoltas, ressaca, marolas, azul turquesa, e por aí vai, e pra cada imagem, pra cada tom, luz, cheiro, pra cada sonoridade, um sentimento próprio, carregado de memórias, roteiros, pensamentos soltos, dispersos, ideias fugazes...

Uma perspectiva que pode parecer melancólica pra uns, pra outros se mostra potente, sublime. Uma paisagem homogênea tanto pode representar um tempo disperso, infinito, quanto um chamado, um convite a uma longa jornada.

Um acidente geográfico é capaz de expressar a maravilha que é a natureza, como também pode transmitir terror, como seria o caso de fortes ondas marítimas se chocando contra rochedos numa tempestade com raios e trovões ao entardecer. Ou seria tal imagem a expressão da grandeza divina?

Talvez em função da enorme proporção que a tecnologia e seus aparatos tenham tomado no mundo atual, ou ainda, talvez pela obtusidade das ações de certos grupos radicais e de alguns pseudo líderes que têm transformado nossa realidade em algo mais duro do que deveria ser. Ou quem sabe, pela soma desses dois, o fato é que, aparentemente, vemos surgir um maior interesse de muitas pessoas em resgatar ou revelar certas paisagens até então esquecidas, adormecidas, desconhecidas, e que são capazes de nos transmitir serenidade, provocam nossa imaginação, relaxam nossa mente, nos dão um pouco de ânimo pra enfrentar o dia a dia.

Nas redes sociais, encontramos hoje vários grupos cujo interesse comum é o compartilhamento de imagens de diversas categorias de paisagens. Alguns são mais genéricos, outros não, tem uns sobre antigos casarões de fazendas, por exemplo, mas há também aqueles sobre alguma região específica de um estado ou de uma cidade. Muitos são restritos a fotos antigas, outros permitem fotos de várias épocas.

Em alguns casos, a representação da paisagem pode ser até mesmo através de desenho ou pintura.

Sabemos que notícias trágicas sempre ocupam um grande espaço na mídia, que muita gente adora ouvir reportagens sobre catástrofe, fatalidade, e se for um barraco com alguém famoso, melhor ainda!

Mas, talvez, com muitos de nós cansados de tanta coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo, um pouco de dispersão do olhar, um tiquinho de curiosidade sobre lugares que aparentemente já se foram, ou que ainda vão chegar, revelações sobre prédios antigos cheios de charme e histórias, ou quem sabe, um morro, uma cachoeira, uma enseada bucólica, refletir um tanto a respeito de algumas paisagens tão enigmáticas, ou dedicar-se a buscar e organizar uma coleção de imagens de determinados lugares, seja mais do que uma terapia.

E assim, é possível que a gente, na verdade, esteja falando sobre esperança, sobre um tipo de júbilo que o ato de vivenciar a paisagem nos dá. Afinal, o que importa mesmo é a evasão da mente por meio da contemplação de diversas paisagens que povoam nossa experiência de vida, nosso olhar coletivo.

Que outros venham e se juntem a nós nesta jornada, neste percurso do olhar. O convite está feito!

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