Pode ser que não, mas esta pandemia estratosférica obrigou o povo a pensar, uns pra cima e outros pra baixo. Meu amigo Basílio, por exemplo, achava que as Ilhas Virgens eram a boate que frequentava no arquipélago prostibular de Carapebus, Carapeba para os usuários, onde se ensinou na teoria e na prática a pedagogia do que só era lido no missal do catecismo, segundo a qual amar não é pecado.
Agorinha mesmo, quando os membros da nossa mesinha secreta e virtual de bar discutem se esta confusa epidemia vai contra as leis de todos os deuses, como, por exemplo, beijar na boa e assumir seus possíveis desdobramentos, os gênios do óbvio defendem a lógica grosseira: se passar álcool mata o invisível inimigo e beber cachaça mata o resto. Simples assim.
Certa vez no Chile, encarei com meu amigo Paulo Torre, atualmente no outro mundo com uma garrafa de Johnny Walker, uma subida de quase 90 graus de ônibus sobre a neve e “nós ambos” – gostaram? - escutamos uma história.
No tempo em que o homo, o bi, o penta e o sexualismo ainda não eram obrigatórios, quatro frades chilenos tementes queriam libertar o amor como desse e viesse. Mas não tinham coragem, para não ferir sua crença religiosa muito rígida nessas coisas, principalmente quando se tratava dos outros.
Alguns deles quase morriam de vontade de cumprir o que ordenava a sua própria natureza e de seus corpinhos, mas morriam duas vezes mais, com medo de pecar. Mas enfim tomaram coragem. Uma bela tarde foram os seis para o íngreme monte de gelo e neve onde se instalava a imaginária “Casa de Lei do Espírito”. Precisavam de reforço para suplantar sua natureza de cerrada abstinência, imposta pela lei divinal.
Eis que de repente, não mais que de repente, foram chamados pelos céus. Uma avalanche gigantesca fez rolar a Kombi em que se arriscavam e foi aquela tragédia. Só um sobreviveu. Interpretou o milagre como uma advertência, já que era um frade de pouca fé. Passou, então, a longa e miserável vida rezando o tempo todo para não acabar como os irmãos pecadores, punidos na neve.
Morreu aos 102 anos, magro e doente. Mal comia, mal bebia, nada.
Subiu aos céus ansioso para encontrar seus irmãos de acidente e falar da sua abstinência que conservara com imenso sacrifício. Na entrada daquele portão celestial de dimensões infinitas, deparou com os amigos antes vitimados. Esses haviam preparado uma recepção embalada em canto em coro. Assim que o sacrificado entrou, seus confrades juntos gritaram para todo o universo saber:
“Não era pecado, não era pecado, não era pecado.”
Dorian Gray, meu cão vira-latas, colocou as barbas de molho.