“Gosto de pensar o Natal como um ato de subversão:
- Um menino pobre;
- Uma mãe solteira;
- Um pai adotivo;
- Quem assiste seu nascimento é a ralé da sociedade, os pastores;
- É presenteado por gente “de outras religiões”, os magos, astrólogos;
- A família tem que fugir e transformar-se em refugiados políticos;
- Volta e vai viver na periferia;
O resto, a gente celebra na Páscoa… mas com a mesma subversão…
Um mundo novo virá dos pobres. Só deles pode vir a salvação”.
Esses versos de Dom Helder Câmara exibem a força e a capacidade de determinação do oprimido. Dia desses, o Papa Francisco citou o arcebispo brasileiro, que morreu em 1999, em Recife, e agora em processo de canonização: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me comunista”. Décimo primeiro filho de um jornalista e de uma professora primária, foi padre aos 22 anos e militante defensor da democracia.
Recebi de minha querida Talita Vilela esta oração. Trabalhamos juntos na equipe de Saúde Comunitária. Aqui mesmo no Espírito Santo. Juntamente com outros engajados profissionalmente na luta que envolvia o acesso a cuidados da medicina para todos, especialmente para o povo miserável da periferia de Vitória e interior.
A ideia que surgia em todo o Brasil era o estabelecimento de cuidados primários em saúde, em que a equipe devidamente embasada na técnica realizava seminários multiprofissionais para formar moradores sobre os cuidados básicos, prevenção secundária etc. Todo o programa era supervisionado por Vitor Santos Neves, então um dos gerentes central do Instituto Nacional de Assistência Médica e Assistência Social (Inamps), em integração da Secretaria da Saúde.
Havia sido designado para dirigir essa modernização na área de psicossomática. Outros colegas encarregaram-se da reforma da estrutura pediátrica no Estado, levantamento sobre pronto-socorro e outras pendências clássicas da saúde no Espírito Santo, principalmente nas áreas periféricas. Essa era a ideia que não chegou a ser concluída, infelizmente.
O nosso time estava preparado tecnicamente para atender em nível terciário – educação em saúde – as 52 unidades populacionais. Por uma razão ou por outra conseguimos trabalhar em três. Em Iúna, por exemplo, fomos muito felizes. A igreja, através de um jovem cura, que já naquela época usava motocicleta, se incorporou ao movimento.
A dificuldade de recursos, acho, fez estancar o movimento oficial, que visava a estabelecer uma escola de atendimento básico nas periferias. Fizemos o que pudemos. Recebi ontem o escrito de Talita Vilela, assistente social, sobre Dom Helder. Deu saudade.
Mas desse despertar institucional surgiu o primeiro pronto-socorro psiquiátrico integrado ao geral no Brasil, o São Lucas. Funcionou por uns dez anos diminuindo, e muito, a aglomeração no Psiquiátrico Adauto Botelho. Um dia, a pretexto de uma reforma, fecharam somente a enfermaria de Psiquiatria Integrada. Por quê? Pergunte ao bispo. Pena que o bispo já morreu.
Hoje, a minha impressão e a dos meus cabelos brancos, apesar das aparências, é que a modernidade tomou conta do pedaço. Clínicas particulares abundam ou são subvencionadas. A Psiquiatria Comunitária, portanto, que nos custou suor e lágrimas, é apenas uma lembrança.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, está triste.