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Crônica

Justiça seja feita, o Brasil sempre está despreparado para tudo

A Caixa de Pandora foi aberta não é de hoje, quando os mandantes estão mais identificados com a delinquência, a incompetência e a extrema incapacidade de enxergar o que se passa a um centímetro do nariz

Publicado em 24 de Novembro de 2020 às 04:00

Públicado em 

24 nov 2020 às 04:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

O povo desorganizado, visto assim do alto, mais parece um carnaval de loucura
O povo desorganizado, visto assim do alto, mais parece um carnaval de loucura Crédito: DenisProduction.com/ Shutterstock
Estamos todos perplexos com esta inimaginada e incontrolável situação de angústia e ansiedade permanente – o ataque de uma virose que desorganiza o mundo, sempre igual em sua falsa sensação de segurança.
Empurra o semelhante para longe um do outro e não se sabe mais nada. O amor fenece. O dinheiro foi consagrado como a magia que aproxima o sujeito de seu objeto de desejo, perdeu a direção. O ódio e a paixão que necessitam um do outro oferecem, agora, perigos mortais.
Desse vírus não temos o menor controle ou suficiente conhecimento, como tínhamos antes, quando gozar a vida era simplesmente natural. Os cuidados até a morte eram função dos semelhantes.
Isolados cada qual no seu canto, a alegria de estar com o outro, indispensável até para falar, sumiu. Desde que nascemos o outro faz parte do campo que viabiliza a vida. Surge a coisificação desse espelho: substituir a pessoa por algum objeto inanimado.
Sempre estive paranoico com a invasão dos objetos transicionais em relação aos aparelhos celulares. O que deveria ser apenas um telefone portátil tornou-se de uso obrigatório. A menos que com o pandemônio, ou sem, a senhora queira ficar isolada falando sozinha. Então.
O que salva e fornece vida é a convivência com o outro, a começar pela mãe. Isolados, somos acometidos de um implacável pavor que leva a atos cegos, não se discute. É obedecer ou adoecer. Quanto aos governos, como diz Ofélia, magnífica humorista, personagem de Arlete Salles, “prefiro não comentar”! Eles também não sabem o que fazer. Ficam concordando e discordando sucessivamente e com a mesma falta de convicção e mero conhecimento de qualquer coisa. Prefiro não comentar.
Convenhamos nós, moradores deste circo sem lona em que vivemos, o leão do picadeiro está perdido devorando o público da arquibancada várias vezes por dia. Respeitável público, o mundo nem sempre foi assim, vamos combinar.
O Brasil de modo especial, justiça seja feita, sempre está despreparado para tudo o que se refere a suas funções de proteger os seres humanos sob sua guarda. A Caixa de Pandora foi aberta não é de hoje, quando os mandantes estão mais identificados com a delinquência, a incompetência e a extrema incapacidade de enxergar o que se passa a um centímetro do nariz.
O cidadão há algum tempo não se organiza em grupos civis para reflexão, no modelo, por exemplo, da Ação Católica e da União Nacional dos Estudantes, como aconteceu até o fim da grotesca ditadura. Os bem pensantes e bons de caráter ainda sobrevivem, mas sem qualquer perspectiva de apoio popular consciente e do bem.
O povo desorganizado, visto assim do alto, mais parece um carnaval de loucura reagindo do mesmíssimo jeito para o que quer que seja. Semana passada, como acontece quase diariamente, uma pessoa foi espancada até a morte. Semana anterior, houve outro crime bárbaro, como acontece no grotesco do cotidiano. Os protestos desunificados exibem a incapacidade de pelejar por uma reorganização social eficiente.
Enquanto isso esse complexo viral e outras mazelas vão acuando e matando, principalmente os miseráveis de qualquer cor que seja. A alternativa do povo é fugir para o mesmo lugar. Para onde? Para as ruas e guetos, de onde jamais sairão. E não se fala nisso nos discursos eleitoreiros.
Os mandatários dessa desorganização com todos os aparatos policiais não conseguem organizar sequer uma fila de cinema. As polícias somem dos lugares onde deveriam enfrentar os bandidos miseráveis, ou não. Porque eles não são ingênuos. E a defesa da Pátria fica entregue literalmente a discursos.
A preocupação real é com a permanência ou não no mando do país para dirigir a hipócrita Caverna de Alibabá, com seus tesouros embutidos nas palavrinhas cruzadas dos discursos ridículos. Os eleitores não entendem uma vírgula das explicações sobre a roubalheira no sanatório geral do país.
Haveremos, ainda, de criar um país verdadeiramente único, onde a população possa realmente controlar os movimentos da cúpula para priorizar as necessidades, algumas gravíssimas, ao contrário do escolher para se submeter por falta de transparência. E quer saber, ninguém entende as doutas explicações vindas lá do alto, mais parece o inferno na Terra.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, lembra Chico Buarque cantando “hoje você é quem manda, mas vai passar”. Como o pandemônio.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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