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Eleições 2020

Voto obrigatório: vontade teria que ser sua, senão não é vontade

Deveria ser obrigatório não morrer de fome, como acontece, não raro por roubo da verba e dos célebres desvios. Isso é tão importante quanto votar de verdade

Públicado em 

17 nov 2020 às 04:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Fila, aglomeração e reclamações no terceiro maior colégio eleitoral de Cachoeiro de Itapemirim
Fila, aglomeração e reclamações no terceiro maior colégio eleitoral de Cachoeiro de Itapemirim Crédito: Bruna Hemerly
Millôr Fernandes dizia que democracia é a arte de governar o circo a partir da jaula da hiena. Transa a cada dois anos, se alimenta de fezes e vive rindo, não se sabe de quê. Habitantes desta nossa nação tupiniquim ajudem aqui. Você é obrigado a votar. Que se saiba, democracia origina-se unicamente da vontade popular, e essa vontade não pode, por definição, ser obrigatória e nem deixar de existir.
Justamente o voto livre, que em tese – bota tese nisso – na dura realidade seria a manifestação desse direito e desejo, não acontece. Senão, vem a lei do mais forte. Pode-se deduzir, então, que a eleição serve para qualquer coisa, exceto para respeitar a vontade do cidadão, ganhando, perdendo, empatando. Amigo, a vontade teria que ser sua, senão não é vontade.
Um povo inteiro lambuzado nas pinturas, tintas e músicas das propagandas de uma mídia escandalosa pode estar expressando tudo, exceto a sua vontade, a menos que você seja um palhaço. Ou uma hiena.
De um jeito ou de outro o cabresto está sempre de plantão. Seria injusto não reconhecer as exceções, especialmente nas cidades do interior onde a grana para a gestão é muito menor e, portanto, exige um modelo de patriotismo caboclo e ligado ao amor à terra.
Mas na prática os poderes populares são manipulados para impor os truques e mágicas das velhas cascavéis. Transformando verdades em mentiras e vice-versa. Como o mágico no picadeiro.
Como lidar com um sistema repleto de fraseados, alguns sem sentido ou em um linguajar em códigos inexistentes? Quanto menos a torcida entender, melhor para o ninho de cobras. É ou não é, Dona Joaquininha?
Chega de artifícios que mudam de nome e de membros se quiser, são mentiras autorrenováveis. Em vez disso, vamos ouvir os gritos desesperados e dolorosos dos moradores de rua, por exemplo, e dos demais miseráveis.
Deveria ser obrigatório não morrer de fome, como acontece, não raro por roubo da verba e dos célebres desvios. Isso é tão importante quanto votar de verdade.
É obrigatório dividir a riqueza do país com todos. Cadê o dinheirinho padrão cueca? Em todo canto pode-se notar os vestígios. Tudo gente boa, com ternos desenhados por Hugo Boss (vocês sabiam?), que, aliás, era o modelista oficial dos nazistas na Segunda Guerra. Uma graça a roupinha daqueles nacionais socialistas descerebrados e obedientes, cheio de seguidores fanáticos que nem se davam conta de onde estavam.
Que seja obrigatório, também, que a Polícia Civil investigue, com a mesma delicadeza com que trata o delinquente comum, os mandatários de cuecas de grife em seus ridículos esconderijos sem precisar convocar policias especiais. Polícia é pra todo mundo que precisar. É só assistir aos seriados da TV.
A mesma lei aplica-se à saúde. Sabemos todos que, muito antes do presente pandemônio, o Brasil já estava completamente despreparado para ter o mínimo cuidado com a saúde do povo. Outra obrigação: exercer com competência a justiça. Monstros assassinos, com repetidas ações contra inocentes, recebem alta para visitar a mamãe. A maioria aproveita, liberta-se de si mesmo, e mata mais, por exemplo. Que seja obrigatório, ainda, investigar a fundo o argumento das autoridades que cometem essa displicência.
Fica obrigatório, em qualquer caso, vincular os altíssimos salários dos altos cargos do governo, nas três instâncias, ao salário mínimo ou ao quilo do pão francês. O lixo que o povo come servido nos latões dos prédios não está dando pra todo mundo.
Fica obrigatório que o presidente da República possua cérebro funcional, capaz de perceber alguma coisa. Pode ser de direita, de esquerda, de cima e de baixo. Que seja obrigatório concurso público ou outra prova qualificativa para o cargo de alta gestão pública. Afinal, o dono da padaria tem que saber fazer pão. Nenhum ministro será obrigado a ser amigo do presidente, mas tem que ser apaixonado pelo povo.
Que seja obrigatório que as obras públicas sejam controladas pelo povo, diretamente. Uma moção pública listando as prioridades da população será obrigatória.
Será proibido nas campanhas o uso de intenções.
Só o passado fala da realidade, é ou não é?
Dorian Gray, meu cachorro vira-lata, arrasta o osso e faz barulho.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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