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Esporte

Tudo é relativo, teria dito Einstein. Menos a magia de Pelé

Do alto de sua unanimidade universal, o Rei fez o que quis. Nunca foi vendido, nunca se vendeu. Só jogou no Brasil e, mesmo no apogeu da glória, não quis sair

Públicado em 

27 out 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Pelé
O craque do futebol Pelé, que comemorou 80 anos neste mês de outubro Crédito: Fifa/Divulgação
Tudo é relativo. Essa frase é atribuída a Albert Einstein para resumir a lógica mãe de toda a Filosofia. Uma vez ousei questionar o gênio da lógica: se tudo é relativo, essa frase, por exemplo, não pode ser.
É então que surge como um raio de Zeus, o absoluto. Pelé, o Edson Arantes do Nascimento. Não há sequer uma única dúvida a respeito da sua divindade.
Pelé não é relativo.
Jamais soube de alguém ou algo que duvidasse da magia de Pelé, eleito o melhor no Prêmio Nobel da Pelota. A senhora aí, conhece? Cale-se então para sempre. Bem me lembro da noite em que no estádio do Maracanã cobrou um pênalti no coitado do Andrada, goleiro argentino. Foi quando ele fez o milésimo gol.
Os hermanos sempre sofrem com a gente. A bola beijou a rede. Ninguém saiu do estádio naquela noite de gala, paralisado por uma autêntica e gratuita felicidade que estava dando a todos nós. Deu uma volta olímpica carregado por todos e repetindo: “Governantes, cuidem das nossas crianças, cuidem das crianças do Brasil”. Os intelectuais do Bar Lamas acharam que não era hora de dizer isso em plena euforia da glória. Era sim, e ainda é. Até hoje não cuidam.
Daí em diante, quando alguém se referia ao Rei como o famoso Pelé levava um esculacho: “Precisa escrever famoso não, se precisasse não era famoso”. É, faz sentido.
E olha que a única modalidade escolar acessível aos miseráveis do país era a forma de jogar futebol: da bola de meia aos grandes estádios. A matéria era os truques que só ele inventava.
Além disso, abriu portas, muitas portas para jogadores brasileiros, inclusive negros. Políticos foram obrigados a dar atenção ao fenômeno, criando a Lei Pelé, que salvou muitos jogadores da pobreza.
Jamais jogou em qualquer time que não fosse o Santos, onde fez miséria com a bola, e naturalmente no pavilhão verde e amarelo enrolado no corpo enquanto exibia sua arte, da qual ninguém conseguiu sequer se aproximar. Jogava seu balé fantástico com elegância e arte. Mas quando aparecia a clava forte enfrentava com força.
Do mesmo jeito que tecia uma linda cabeçada, chute de todas as instâncias, jogadas criativas de deixar estádios de boca aberta, não fugia à luta: sabia distribuir porrada quando atacado pelas costas. Em uma Copa do Mundo – acho que a do Tri – aplicou uma cotovelada em um irreverente uruguaio disposto a tirá-lo do campo, de tal engenho e arte que o juiz nem desconfiou.
Havia um excelente jogador argentino, defensor de talento, Perfumo, do River Plate. Em porfias entre as duas nações amigas – não debocha não Dorian Gray – dedicava-se a marcar Pelé, especialmente. Honorável Perfumo, “quantos chapéus”, “banhos de cuia” e bolinhas entre as pernas, Pelé lhe aplicou, e não se arranhou. Tudo dentro dos mais requintados moldes da perícia e elegância do Negão. Na maior categoria.
Do alto de sua unanimidade universal fez o que quis, inclusive no campo do amor durante as viagens, de modo que a partir dos 16 anos soube driblar os repórteres, cumprindo uma carreira discreta. Encheu a pança de amores e ninguém sabe de nada, como não é pra saber.
Nunca foi vendido, nunca se vendeu. Só jogou no Brasil e, mesmo no apogeu da glória, não quis sair. Propôs uma lei – aprovada – que durante muito tempo proibiu a saída de jogador tupiniquim para jogar fora do país. Ficando aqui, os craques dos principais clubes, de diversos Estados, se familiarizavam tecnicamente, um supertreino.
Formavam a Seleção com a nata de todos os clubes do Brasil. Em seguida era só ganhar. Depois dizem que Pelé não era político. Até o Vicente Feola ganhou campeonato, mesmo dormindo durante treinos e jogos.
Quando a lei caiu na mão do dinheiro, correram todos – jogadores, técnicos, e tudo mais atrás de grana. Acontece até hoje. Sentiram o faro do vil metal da Europa, e a Seleção que se lixasse.
Pelé não cedeu. Ficou até hoje, aos 80 anos.
Dorian Gray, meu cão vira-latas, é verde e amarelo.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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