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Psicanálise

​Sobre a tarefa de criar uma nova concepção do pensar além do inconsciente

Creio que no pensamento atual a aceitação ou a introdução de uma interação óbvia, como a psicossomática, faz-se com restrições para se dar o devido valor

Públicado em 

03 nov 2020 às 04:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Escola de psicanálise discute impactos da pandemia na adolescência
Os  impactos da pandemia exigem raciocínios inéditos  sobre a mente humana Crédito: divulgação
A psicanálise, assim como tudo na vida, queiramos ou não queiramos, será obrigada a reeditar conceitos e práticas diante deste inimigo invisível, mas certamente letal, o coronavírus. Ocorre, neste exato momento, esse fenômeno de estranha abrangência, que nunca aconteceu antes. Aliás, nada semelhante. A medicina recolheu-se ao seu lugar de sempre: tratar o sintoma sem poder ou saber relacionar o ser humano com o ambiente em que vive.
As pesquisas repletas de boa vontade e dedicação não conseguiram ainda obter um traçado e desvendar o sistema patológico, e desenhá-lo. Particularmente em relação à psicanálise, há de se construir um modelo onde a paranoia é real, o delírio palpável, e todo imaginário social podendo concretizar-se a qualquer momento.
​A dimensão mundial do fenômeno me leva a pensar que o atual estado de coisas exige raciocínios inéditos para tentar uma clarificação.
Quando Sigmund Freud descobriu o inconsciente, e que portanto dentro do próprio sujeito algo existia operando uma mente que fugia a seu controle, foi um Deus nos acuda. Isto é, denuncia-se um sistema operando à semelhança do sistema autônomo dos órgãos internos que operam em nosso corpo. Mente com inconsciente que liga-se diretamente a existência interna da pessoa.
​Em 1945, um pensador religioso, Rudolf Allers, quase padre, praticava, segundo consta, uma modalidade de ajuda com palavras. Procurei até achar um texto desse pensador. No início, fazia pouco caso das deduções de Freud, tentava sistematizar cientificamente o fato de nosso corpo submeter-se essencialmente a uma instância sobre a qual tínhamos qualquer poder.
A maior parte do pensamento naquele instante era submetido a dogmas e mandamentos religiosos. Havia uma imensa escuridão no que toca ao entendimento do cérebro capaz de dar explicações necessárias. Então, seria preciso inventar a psicanálise.
Afinal, quem é esse tal de doutor Roudolf Allers para pretender criticar o pensamento de Freud? O contemporâneo de Freud era doutor em Medicina e Filosofia, professor de Psicologia na Universidade Católica da América e ex-assistente de Psiquiatria das Escolas Médicas de Munique e Viena.
Ele mesmo fala por si: "[...] conto com meu ativo, tantos anos de prática de psiquiatria e de psicoterapia. Fui durante muitos anos professor de psicologia médica e normal”. Havia então pelo menos duas psicologias.
O descobrimento do inconsciente determinou, pelo menos academicamente, o fim do horror impingido às pessoas “fracas dos nervos” e acorrentadas em porões. A loucura era vista como algo que, além de causar outros dissabores, era contagiosa. Uma espécie de “coronavírus” do século 19.
​Para não serem apanhados de calças curtas, os donatários do mundo devem, sem outra alternativa, criar sistemas de psicoterapias e psiquiatria, etc, que possam operar na atualização do mundo pós-Covid-19 e as seguintes quando houver.
Já estamos vivendo um novo mundo e as adaptações surgem com a qualidade e a genialidade que veio com o descobrimento do inconsciente, no qual Freud desenhou um ego, um superego e o Id. Entrou de cabeça em um mistério e salvou grande parte da humanidade.
O impacto da descoberta, com todas as dificuldades daquele mundo o próprio, Allers reconheceu: ‘’Como toda gente sabe, Freud é o verdadeiro pai da psicanálise. Foi ele quem desenvolveu tudo que hoje se encontra geralmente compreendido sob esta rubrica’’, reconhece. Mas não sem uma ressalva: ‘’[...] os primeiros passos nesse sentido foram dados com Breuer e, como parece, em parte sob a sua influência’’.
É preciso incluir no sistema de funcionamento psíquico as modificações e acréscimos funcionais para formar uma nova e complementar estrutura que vai além do consciente e do inconsciente.
Creio que no pensamento atual a aceitação ou a introdução de uma interação óbvia, como a psicossomática, faz-se com restrições para se dar o devido valor.
O mundo Psi tem que ser pensado de novo e mais.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, sorri descrente

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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