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Vídeos de pessoas bebendo detergente da marca Ypê viralizaram nas redes sociais em protesto contra uma decisão da Anvisa. A prática pode causar lesões no pulmão e intoxicação.
A repercussão começou após a Anvisa determinar, no último dia 7 de maio, o recolhimento de produtos da fabricante Química Amparo, responsável pela marca Ypê. A medida suspendeu a fabricação, comercialização, distribuição e uso de determinados lotes de lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes identificados com final 1.
A avaliação técnica apontou descumprimentos em sistemas de garantia, produção e controle de qualidade, indicando risco sanitário e possível contaminação microbiológica.
A biomédica pós-graduada em análises clínicas e toxicológicas, Milena Zager Gobbo, diz que esses produtos contêm uma mistura de substâncias químicas potencialmente irritantes e nocivas ao organismo.
“Em sua composição, estão presentes os surfactantes, moléculas que possuem uma extremidade polar, com afinidade pela água, e uma cadeia apolar, com afinidade por gorduras e sujeiras, permitindo a emulsificação e remoção de resíduos durante a limpeza. Apesar dessa importante função na higienização, essas substâncias podem provocar irritação significativa em tecidos sensíveis, especialmente na pele, olhos, mucosas e trato gastrointestinal quando ingeridas”, alerta.
A ingestão de detergente representa um risco importante, pois o produto entra em contato direto com as mucosas da boca, esôfago e estômago, podendo causar sensação de queimação, náuseas, vômitos, dor abdominal e processos inflamatórios.
“Em casos mais graves, pode ocorrer aspiração do produto para as vias respiratórias, resultando em lesões pulmonares e comprometimento respiratório. Por esse motivo, a indução do vômito não é recomendada, uma vez que o retorno do produto pelo esôfago aumenta a irritação das mucosas e favorece a aspiração da substância para os pulmões, agravando o quadro clínico”, diz a professora do Unesc.
Além dos riscos químicos, Milena Zager Gobbo destaca que produtos de limpeza também podem representar risco microbiológico quando apresentam contaminação por microrganismos. “A detecção de bactérias em detergentes demonstra que esses produtos nem sempre estão livres de contaminação microbiológica, podendo atuar como potenciais veículos de disseminação de microrganismos. Nessas situações, o contato ou a ingestão de produtos contaminados pode favorecer a ocorrência de processos infecciosos", pontua.
Em caso de ingestão, a orientação é enxaguar a boca com água, interromper imediatamente a exposição e procurar orientação médica. “O atendimento rápido é fundamental para avaliar o risco toxicológico e definir a necessidade da condução clínica”, conclui.