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Paulo Bonates

Fazer psicanálise é ser verdadeiro sem tentar teatralizar

Eu falo e você fala. Eu faço e você faz. Eu sinto e você sente, eu penso você pensa, eu amo e você ama

Publicado em 22 de Julho de 2019 às 19:02

Públicado em 

22 jul 2019 às 19:02
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Sessão de Psicanálise Crédito: Divulgação
Sem querer abafar ninguém, como disse Noel Rosa, lhes conto a conversa que tive com um amigo acerca da inviabilidade de um sistema social, se não há pessoas que – para usar uma linguagem coloquial – sejam do bem. Lembro agora de um episódio contado pelo psicanalista Julio de Mello Filho, quando descreve um trecho de uma escrita comum feita por um paraplégico e sua psicoterapeuta. Disse o paciente: “Pensei em escrever uma carta, mas pensei em escrever com nós dois. Eu falo e você fala. Eu faço e você faz. Eu sinto e você sente, eu penso você pensa, eu amo você ama. Eu tenho você terá”.
Fazer psicanálise é Ser sem tentar Fazer, atuar, teatralizar. “É uma arte que sobretudo tem relação com escrever poesias, cultivar amizades e cuidar de crianças”. E outras pérolas do afeto. Ser dotado de um “verdadeiro self” permite a quem analisa e a quem é analisado Ser e não ser obrigado a Fazer para ter. Este seria um “falso self”, falso protetor. Simples assim.
André Green, bebendo em Donald Winnicott, ambos referências em Psicoterapia, deram a oportunidade para que Julio de Mello desenvolvesse seus conceitos sem nunca deixar que se sobrepusessem à sua própria prática.
Tudo o que se pode fazer pelo outro que se dispõe a construir um campo psíquico – a transferência e a contratransferência – é aquele que se nomeia terapeuta capaz de “deixar-se inventar” de modo que a história de ambos seja recontada e ampliada a cada sessão. Ou seja, criar um ambiente facilitador para os processos de maturação. E isso não tem nada a ver com conselhos, exercícios e mágica. É claro que esta orquestra precisa definir um maestro, que como uma orquestra qualquer também toca os instrumentos ao regê-la.
Winnicott descreve um objeto especial, o Objeto Transicional, criado pelo paciente cujas características podem ser resumidas em uma certa coisa, que é em parte real, palpável, e em parte representações do mundo interno da pessoa que permanece in natura operando o desenvolvimento.
É o caso dos inseparáveis travesseiros, ou outro objeto, escolhido desde dentro, de modo que jamais serão abandonados pelo “dono”. Chupeta não vale. Paulinho da Viola em “Coisas do Mundo” canta: “As coisas estão no mundo, eu preciso aprender”. Não é à toa que o bebê usa a oralidade – sua primeira fase de desenvolvimento – para “reconhecer” os objetos colocando-os na boca. Por isso beijamos, assoviamos, provamos...
Se não mudar de ideia, hei de escrever sobre estes movimentos do inconsciente assim como eles me vêm agora. Brincar com coisa séria.

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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