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Crítica

"Freud", da Netflix, é ótima ficção com o pai da psicanálise

Série "Freud", lançada pela Netflix, recria o médico Sigmund Freud como um jovem ainda em busca de aperfeiçoamento na psicanálise que acaba envolvido em uma trama misteriosa

Publicado em 27 de Março de 2020 às 20:54

Públicado em 

27 mar 2020 às 20:54
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Série
Série "Freud", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
Não sei muito bem o que Sigmund Freud fazia durante sua juventude (na verdade, pouco se sabe, visto que ele destruiu suas anotações da época), mas imagino que ele não andasse pelas ruas de Viena ajudando na solução de crimes misteriosos e se envolvendo em uma trama que inclui até uma luta de poder no Império Austro-Húngaro. Em “Freud”, série da Netflix, é justamente isso que o pai da psicanálise faz.
Situada por volta de 1880, com o médico com cerca de 25, 30 anos, a trama tem início com o jovem ainda iniciando sua carreira na medicina, trabalhando em um hospital psiquiátrico. Interpretado por Robert Finster, ele tenta, sem sucesso, induzir a hipnose para o tratamento de histeria, mas suas técnicas são tratadas com descrença no meio médico europeu. Freud chega, inclusive, a ser considerado um charlatão por seus pares.
Quando, por acaso, acaba envolvido em um estranho assassinato, seu caminho se cruza com o do inspetor Kiss (Georg Friedrich) e, mais tarde, com o da misteriosa Fleur Salomé (Ella Rumpf), uma bela mulher que pode tanto estar manifestando poderes sobrenaturais quanto ser uma paciente de histeria.
Sem entrar em detalhes para não revelar parte da boa trama, “Freud” tem boas surpresas logo nos primeiros dos oito episódios da temporada. O roteiro cria alguns antagonistas claros de início, mas logo percebemos que se são apenas peões num grande jogo de xadrez. 
Alemã e sem as amarras de boa parte das produções americanas, a série se permite caminhos bem ousados e por vezes até bizarros. Freud é recriado como um sujeito ainda inseguro dos caminhos que pretende seguir e movido a cocaína. Além dele, Kiss e Fleur também ganham desenvolvimento satisfatório - o inspetor tem que lidar com seus traumas de guerra enquanto a moça tem seus próprios problemas, ou seja, dois pacientes perfeitos para Freud se aprofundar na psique humana.
“Freud”, a série, tem boa ambientação e recriação de época, criando um bem o contexto da Áustria que desembarcaria na Primeira Guerra Mundial nos depoi. A série aposta nos ganchos ao final dos episódios para criar expectativa no espectador, mas eles raramente parecem forçados. O roteiro, misturando trama policialesca com questões psicológicas e fantasia, é bem construído e não fica desinteressante nem quando explora algumas de suas subtramas.
Série
Série "Freud", da Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
A reinvenção do médico é ousada. Há a intenção de ser pop como o “Sherlock Holmes” de Guy Ritchie, mas a pegada é mais similar à de séries como “O Alienista” e “Penny Dreadful”, principalmente pela tensão de alguns momentos e pelo clima até sexy que permeia os oito episódios.
É bom clicar no primeiro episódio ciente de que “Freud” é tão fictícia quanto “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros” (2012), por exemplo. A série da Netflix pega um lendário personagem real e algumas de suas características para criar uma trama fantasiosa e divertida, um excelente passatempo, mas nada além disso. É uma aventura interessante, um bom thriller que poderia ser protagonizada por um personagem fictício, mas talvez, no caso, não chamaria tanta atenção.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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