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É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio. Escreve às terças

Roubos e pecados de Santo Agostinho

Uma ilustração caótica trazendo o santo, e que poderia ser feita por qualquer um de nós

Publicado em 08/12/2020 às 05h00
Atualizado em 08/12/2020 às 05h02
Santo Agostinho
No livro "Confissões", Santo Agostinho relata a sua vida antes de se tornar cristão. Crédito: Reprodução

Li, semana passada, em um pequenino livreto, “Confessions”, um trecho de Santo Agostinho em que faz insólitas revelações. Não era nada santo, antes de ser santo, o santo. O filósofo era chegado a uma gandaia e só voltava pra casa às sete da manhã, alegando que perdera o bonde, espalhando cheiro de lança perfume no ar. E outras estripulias de fazer inveja a mim mesmo.

Adorava mulher feliz, coisa que naquele tempo não era proibido, sem declarar a opção pelo seu desejo, porque, assim como hoje, ninguém tem nada com isso, nem para encher o saco a favor ou contra a forma de abraçar o próximo, quando os próximos não estiverem próximos. Meio doidão, só acreditava no que não via, pois aí podia exercitar o mais prazeroso de suas faculdades: delirar.

No auge da sua açoitante felicidade, Guto, como era conhecido no Cordão do Bola Preta, durante um baile pré-carnavalesco, quando o piston gemia a letra de sua quase desconhecida composição: “Tava jogando sinuca e uma nega maluca me apareceu, vinha com o filho no colo dizendo pro povo que o filho era meu...”, subia na mesa para dançar.

De repente, não mais que de repente, Agostinho é tomado por um chamado divino que iria acompanhá-lo pelo resto de sua longa vida na Terra. Arrependeu-se tão profundamente de sua vida leviana, até então, que ajoelhou-se durante 40 dias e 40 noite em ritual de autoflagelação. Às vezes, alguém lhe oferecia água, mas não aceitava, pois estava desde priscas eras viciado em caipirinha. Passou-se.

Arrepender-se dos pecados não era o bastante, já que Agostinho das Quebradas – como era conhecido no Largo da Lapa – não abandonava, por assim dizer, os pensamentos mundanos, alguns impublicáveis neste espaço. Resolveu apelar.

Como tinha incomensuráveis influências e cumplicidades em vários ministérios e demais altezas da época, mesmo com os pensamentos e os desejos fixados na orgia, pediu para encontrar-se com Jesus, em carne e osso. Seu único pedido era que Ele exorcizasse seus pensamentos e desejos mundanos. Desejava ser santo, criar uma ordem e alguns colégios na Tijuca. Isso era humanamente impossível sem a ajuda sagrada.

O Senhor, diante de tanta renúncia, comoveu-se. E diante de Agostinho ajoelhado respondeu com a força de um Deus.

- Augustus, de hoje em diante...

- Pelo amor do Pai, Mestre, hoje não. Me dá mais uns dois anos de safadeza.

Para arrepender-se, como pregam todas as religiões, os pecadores têm que ter cometido pecado. É ou não é? Minha querida tia-avó Joaquina entendia que um santo tem que abrir mão de algumas coisas.

Por exemplo, essas autoridades que fazem lei em causa própria, sendo que umas podem anular ou postergar outras. É tudo interesse dos mandantes, que têm – alguns – um discurso pífio. Ou seja, mandam e desmandam em tudo e não precisam estudar. Basta ter a cumplicidade certa.  A hipocrisia dá de goleada.

Amigos não se avexem com o tempo aqui contado dentro da Teoria do Caos. Não há lógica nem sentido no rumo que tomamos. A ilustração caótica trazendo Santo Agostinho poderia ser feita por qualquer um de nós.

Neste exato instante fazemos parte de um sistema perverso, morrendo ou contaminando o outro e temos apenas noção dos critérios de vida e sobrevivência. Para finalizar, lembro da importância daquilo que está dentro de nós . Consta das “Confissões” de Agostinho. Tendo roubado peras de uma propriedade,  confessou que não o fez nem por necessidade, nem para ajudar o próximo. Fez pelo prazer de praticar o que era proibido, pelo gosto de roubar pelo pecado em si.

Dorian Gray, meu vira-lata, engordou.

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