Da outra vez que me vi diante do morrer foi em um voo para Nova York, logo no início, quando o avião atravessa o Norte do Brasil e começa a cruzar o Atlântico. A outra é agora com essa pandemia. Assim como antes, o assassino era imbatível, vindo não se sabe de onde. Agora, como lá, o piloto não podia controlar a aeronave e pedia calma com uma voz trêmula.
Então.
Esse voo da virose provoca uma tempestade que atinge a todos, como no avião. E o piloto não sabe guiar.
No avião, um cara na minha fileira bebia feito um condenado e dedicou-se a contar piadas. Todas muito conhecidas. A enfermeira, digo, comissária de bordo, informou a distância que nos encontrávamos de Nova York. Ninguém ouvia nada, estávamos preocupados com a distância até o solo, o mar, ou sei lá o quê. A comissária da cabine, à moda e maneira do porta-voz do governo, olhou pra mim. Pensei em dar meu último beijo com o derradeiro suspiro, mas ela tirou meu estímulo.
"O piloto bebeu de novo", revelou para nos acalmar.
Neste céu azul de anil, o pandemônio parece que veio de longe só para nos matar. E a gente finge valentia. “Aglomero sim senhor, por quê?”
Às vezes, parece que nós, os terráqueos, queremos ganhar tempo e encher o saco do vírus até ele desistir: “Isso aqui é chato demais. Vamos arranjar outro planeta”.
O voo estava quase sem balançar e dar um mergulho, queda livre tipo três mil pés. Sabe aquele negócio que a gente só vê em filme: bolsas caindo do compartimento com as máscaras (não chequei, mas acho que não eram abastecidas de oxigênio, pois ninguém usou). Aliás, o povo tupiniquim tem certa implicância com máscaras.
O cara bêbado do avião, que experimentava todas as bebidas do carrinho, propôs que a gente cantasse o hino do Vasco da Gama. “Vamos todos...”. Esqueci de contar que a aeronave não caiu. Eu havia descolado da minha poupança um bilhete na classe Executiva (vocês não imaginam como eu sou metido à besta), de modo que estava no nariz do pássaro de aço. Olho para trás e vejo que quase todos os passageiros chegaram juntos para frente, perto da cabine do piloto. O que é um perigo.
Uma freira que era a única ligação direta com o Senhor mostra seu poder mágico da fé: “Todos nos seus lugares. Essa merda vai cair de bico e vocês serão os primeiros a chegar ao inferno”. A freira era bem relacionada. Melhor do que cair na Argentina.
Voltando à Covid-19.
Vejam que coisa interessante. Vocês acreditam que em se tratando dos nossos dirigentes pode ocorrer falcatrua em todas as etapas da vacinação?
Eu que sou temente a Deus e rezo em toda tempestade aérea, tive a maldade de pensar que haveria alguém que furaria, na maior, a fila da vacinação, por exemplo. A plebe rude que foda-se.
Meu amigo Rubinho Gomes é quem sabe enfrentar crises violentas desde o primeiro suspensório. Afinal, foi ele e meu querido e finado irmão Antonio Alaerte que produziram o Festival de Inverno de Guarapari, em que ano foi mesmo, meu Deus?
Clamo, peço: uma vacina pelo amor de Deus. Olha que eu me enquadro em todas as categorias de prioridade: sou médico assistente, psiquiatra e psicanalista, tenho mais de 70 anos, sou portador de umas mazelinhas controladas, mas que somadas me deixam levemente paranoico, e mesmo assim não me enquadram em nenhuma fila. Será que quem dirige essa parada é o mesmo piloto daquele voo?
De repente, não mais que de repente, volto o meu pensamento para o voo, quando o piloto dirige-se à torcida aflita.
“Senhoras e senhores, atenção. Tivemos uma imperceptível turbulência causada pelo fato de o avião estar voando. Nosso tempo de voo até Nova York está previsto para ocorrer a qualquer momento, ou não. Devo avisar que acabou o sanduíche de mortadela”.
A freira lia o Charlie Hebdo. Era devota de Santo Agostinho.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, rompeu com a cachorrada para evitar aglomeração.