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O entardecer da minha vida

Quando eu encontrava Luiz Raul Machado no Rio de Janeiro

Quando o conheci, no tempo de JEC (Juventude Estudantil Católica), morava em um casarão em Botafogo (era filho de um grande cientista) e servia um lanche amigo em sua casa

Públicado em 

12 jan 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Café Lamas, no Rio de Janeiro
Estava jantando certa noite no restaurante Lamas, no Flamengo, onde morava nessa época, quando aparece como um santa visão o Luiz Raul Crédito: Divulgação
“Para mim a chuva no telhado
É cantiga de ninar
Mas pro pobre meu irmão
Para ele a chuva fria, vai quebrando seu telhado
E faz lama pelo chão”.
(trecho de uma cantiga católica)
Ontem, quando acordei, veio à minha mente, como uma canção, uma peça que assisti quando morei no Rio – "A aurora da minha vida" – a convite da atriz Stella Freitas, então casada com Luiz Raul Machado.
Luiz Raul era em todos os sentidos o ideal do ego de todos e dirigente nacional da Juventude Estudantil Católica, a JEC, e da liderança da União Nacional dos Estudantes, a saudosa UNE, que colocava em ação o que era a simples lucidez.
A ditadura estava excessivamente perversa e tínhamos muito medo. Ele provocava justa inveja nacional e estadual quando vinha a Vitória para coordenar as reuniões e planos em nome do bem. Bonito pra cachorro, e sabia cantar e ensinar música popular.
Passou-se.
Estava jantando certa noite no restaurante Lamas, no Flamengo, onde morava nessa época, quando aparece como um santa visão o Luiz Raul. Sobre seu destino eu não sabia muito. Sabia sim, que não mudara de ideia e nem aderira aos invasores do próprio país. Eu particularmente tinha por ele uma santa inveja e admiração, o que é a mesma coisa.
Pois bem, dei de cara com ele e Stella. Nessas horas de extrema emoção sempre me ocorre uma espécie de privação de sentidos, de modo que depois de apertar-lhe a mão perguntei angustiado:
- Você não morreu?
- Claro que morri, não está vendo? - brincou.
Sentamos a jogar conversa fora e chope à dentro, depois de recobrar o fôlego. Uma das versões era a de que teria sido assassinado, algo muito comum nesta época.
Ele me convidou para assistir aos ensaios no Teatro de Arena em Copacabana, uma pérola de humor em que Stella atuava ao lado de Marieta Severo, Pedro Paulo Rangel, Analú Prestes, Carlos Gregório, Mario Borges e Roberto Arduin.
Encontrava algumas vezes com o Luiz Raul que vivia de escrever contos infantis. Quando o conheci, no tempo de JEC, morava em um casarão em Botafogo (era filho de um grande cientista) e servia um lanche amigo em sua casa.
Um belo dia me contou que viajaria para a Europa. Evitava falar de suas dores – todas. Tinha uma filha – Anna – com a Stella, que fez parte durante muitos anos da “Escolinha do Professor Raymundo", de Chico Anysio, vestida na personagem de Dona Cândida, que permanece até hoje.
Encontrava várias vezes Luiz Raul trabalhando com crianças e adolescentes, meninos e meninas dispostos a compartir o gênio e a arte. Perdi-o de vista, sinto muitas saudades.
Uma coisa está impregnada em minha mente. As classes raciocinadoras precisam de organização. Logo.
Qualquer dia, qualquer hora, eu e Luiz Raul vamos nos reencontrar. E o restante da patota de irmãos em Cristo.
Dorian Gray, meu cão vira-lata que ladra, morre de ciúmes.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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