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É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio. Escreve às terças

Aí eu falei para a Sophia Loren...

Até nos filmes aos quais assistia para me contorcer de ciúmes, ela preferia o Marcelo Mastroianni, apesar das mais de mil cartas implorando uma pontinha

Publicado em 13/10/2020 às 05h00
Sophia Loren em
Sophia Loren em "Arabesque". Crédito: Pinterest

Que o amor verdadeiro é necessariamente imaginário, isso eu já sabia desde que tia Cecy, a intelectual santificada da família, me explicou o que é Deus. Enrolou-se toda, quase lhe cai a baloiçante dentadura. E dela partiu a explicação de fatos da história antiga, cujas palavras e explicações, que só ela sabia, a transformaram na mais habilidosa jogadora de palavras cruzadas da rua Júlio de Castilhos, a derradeira de Copacabana.

Ela havia descoberto que a sílaba “UR”, a pátria de Abrahão, é indispensável para compor uma parada nas cruzadas. Ensinou-me também, para este mesmo jogo, que pedra de moinho é “MÓ”. Um dia, apareceu lá na revista “O Cruzeiro” no meio de suas cruzadas: “amor perfeito”. Ficou todo mundo na mesma.

Nesse tempo eu tinha um caso de amor com a atriz italiana Sophia Loren. Ela não sabia. Sabia eu que as nossas forças armadas haviam vencido com a maior dignidade os fascistas de Mussolini. Achava que meu tio Paulo, que era coronel do Exército, poderia me levar lá. Do Posto Seis, em Copa, até a Sicília não devia ser tão longe assim. Sophia, sem sequer conhecer as minhas intenções, acabou preferindo Carlo Ponti, soube pela revista “Sol”, que se comprava em uma banca na calçada do Teatro Municipal do Rio.

Ninguém respeita o amor verdadeiro. Todos na nossa “república” sabiam do meu envolvimento com ela. Para me fazer feliz enchiam-me de notícias agradáveis: “Sabia não? Carlo Ponti morreu de repente”. Em compensação as paredes do nosso abrigo de acadêmicos, “A Moribunda”, estava repleta de retratos de Sophia.

Até nos filmes aos quais assistia para me contorcer de ciúmes, ela preferia o Marcelo Mastroianni, apesar das mais de mil cartas implorando uma pontinha. Gastei toda minha mesada e nenhuma das respostas às minhas cartas chegou. Deve ter sido o Correio, sempre o Correio.

Em uma sessão no cine Metro, justo em uma obra-prima “Un Giorno Piu Speciali”, havia uma cena em que ela ficava a sós no mesmo prédio que Mastroianni, justo para ver o ditador italiano passar. Perguntei ao Lauro Sergio, amigo da consagrada “Amoribunda”, porque não havia me preferido.

- Injustiça Bona, injustiça.

Lauro é meu amigo até hoje.

Mudei pra cá, trazendo emoldurados os retratos de Sophia que resplandecem nas paredes do meu singelo apartamento nesta maravilha de ilha.

Mostrei ao Lauro uma foto da Patrícia Poeta. Escrevi para a dita perfeição nacional em matéria de mulher. Já faz tempo. Mas não perco a esperança. Ameacei até greve de fome. Nada. Fingiu que não me ama.

Enquanto isso vou às teorias que regem o amor e o desejo. Os meus preferidos teóricos no tema concordam no essencial. Estou erradamente escolhendo meu objeto de desejo antes de checar os corações. O meu, os delas.

Um dia passeando na Praia Cumprida dei de cara com a beleza capixaba. Nunca cheguei a falar com ela e não se chamava Sophia.

Dorian Gray, meu cão, vive bem sozinho.

Cinema Crônica

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