ASSINE
Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

Mulheres, liberdade e equidade: um sonho ainda possível?

Mulheres extraordinárias, de talentos, competência, conhecimento, capacidades múltiplas e sensibilidade foram silenciadas e desprezadas ao longo de uma história que nos envergonha como humanidade

Publicado em 09/03/2021 às 02h00
Atualizado em 09/03/2021 às 02h02
Igualdade de acesso e oportunidades entre gêneros é bandeira do Dia da Mulher
Temos que lutar por uma equidade de gênero que nos dignifique sem retirar a dignidade do outro. Crédito: pikisuperstar/ Freepik

Depois de ter recebido dezenas de felicitações pelo Dia da Mulher, todas elas carregadas de afetividade e sinceridade, originadas tanto de homens quanto de mulheres, pus-me a refletir sobre a conveniência de comemorar algo neste momento tão trágico de nossa história, não apenas em razão da pandemia, mas, principalmente, em razão dos enormes retrocessos que temos vivido no campo dos direitos das mulheres, com recrudescimento de conquistas históricas que já nos pareciam consolidadas.

A violência contra meninas e mulheres atinge patamares inimagináveis dentro de um projeto civilizatório que defende a igualdade, princípio constitucional dos mais caros à democracia, como condição precípua para o exercício de uma cidadania plena. Não há que se falar em democracia sem que haja respeito às diferenças e superação dos preconceitos que apenas se prestam à manutenção de privilégios.

Nossa luta por igualdade de gênero vem sendo, cada dia mais, objeto de resistência e enfrentamento, por parte dos adeptos e praticantes de um machismo estrutural, radical e ainda vigoroso no século XXI, que teima em nos silenciar e nos ocultar, retirando nosso direito à livre manifestação do pensamento, à criatividade e à dignidade.

Mulheres continuam a ser mortas todos os dias pelo simples fato de serem mulheres. Mulheres continuam a ser silenciadas em casa, todos os dias, por companheiros que não suportam dividir a supremacia discursiva e com ela o poder. Mulheres continuam sendo ocultadas, encobertas e esburacadas no trabalho, vendo seus projetos serem desqualificados ou furtados por homens que não suportam a constatação da competência e das habilidades das mulheres.

Das mulheres continua a ser cobrada uma submissão ao marido e aos homens, em nome de Deus e da fé, que não se sustenta hermeneuticamente , mas que permanece sendo o sustentáculo para a manutenção de benefícios ilegítimos em instituições religiosas que se apresentam como defensoras da moral e da família, mas que, de fato, defendem apenas os interesses de lideranças machistas, fulcradas em uma cultura patriarcal que objetifica a mulher e que retira dela a dignidade que lhe foi outorgada pelo Criador do universo.

A luta continua sendo o caminho para a liberdade. Não há dignidade e liberdade na acomodação, na subserviência, na humilhação, no desprezo, na violência e na desigualdade.

Mulheres extraordinárias continuam a construir a história de forma silente, encobertas por uma cultura pautada em uma masculinidade autossuficiente, de enaltecimento do homem e redução da mulher a uma condição de inferioridade, enquanto alguns homens se apropriam, indevidamente, de suas capacidades, inteligências e inventividade.

Dezenas de pesquisas realizadas por mulheres foram publicadas com autoria masculina por pesquisadores que ocuparam lugares secundários na investigação, mas que chegaram, inclusive, a Prêmios Nobel, sem que de fato os merecessem.

Artistas como Camille Claudel, escultora de talento ímpar, hoje reconhecida por sua genialidade, morreu ofuscada por Rodin, um frágil macho, representante de sua época, a quem era insuportável que uma mulher pudesse com ele disputar o sucesso e a sua também extraordinária sensibilidade e capacidade artística.

Mileva Einstein, primeira esposa de Albert Einstein, física e matemática, e, segundo historiadores, a verdadeira formuladora da Teoria da Relatividade, teve seu nome excluído da história por uma cultura baseada na supremacia do homem e na inferioridade e fragilidade intelectual da mulher.

A física, a biologia, a medicina e tantas outras áreas do conhecimento, são ricas de casos de ocultamento de pesquisadoras talentosas que tiveram seus nomes retirados de artigos científicos que dariam a elas a autoria e a primazia na descoberta. O certo é que mulheres extraordinárias, de talentos, competência, conhecimento, capacidades múltiplas e sensibilidade foram silenciadas e desprezadas ao longo de uma história que nos envergonha como humanidade.

Fosse apenas o ocultamento, perverso e injusto, já teríamos muito do que nos entristecer e indignar. Ainda hoje, milhares de mulheres, em todo o mundo, continuam a ser tachadas de loucas, desequilibradas, histéricas, falantes contumazes, inseguras ou incompetentes, dentre outros esteriótipos e traços desqualificantes de personalidade, como estratégia de inferiorização com vistas a manter privilégios injustos.

Comemorar, lutando e denunciando as injustiças, sem perder de vista a beleza e a grandeza das conquistas e das vitórias alcançadas. Lutar por uma equidade de gênero que nos dignifique sem retirar a dignidade do outro.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.