Qual o objeto mais antigo que você tem em casa? Que histórias ele conta? Quais amores e dissabores se escondem no fogão que aposentamos, depois de 30 anos de uso? Quantos ainda virão no cinco-bocas de inox que instalamos no lugar? Que perdas e ganhos passaram pelas prateleiras da cristaleira art nouveau que adormece ao lado do velho piano de raízes alemãs?
E ele? Quais sentimentos coleciona, que melodias, saudades, pausas e staccatos guardou, ao longo de décadas e décadas de uso ou abandono?
Quão antigas são as memórias que repousam no banquinho de couro que minha avó usava para esticar seus pés, depois os de meu pai e agora os meus? Lembro deles estarem na sala desde que me entendo por gente, o banquinho, minha avó, um telefone de disco, a porta de vitrais coloridos e um armário de onde, vira e mexe, ela tirava uma caixa de bombons.
Lembro da textura de um bem cuidado jardim de samambaias, avencas, antúrios e suculentas, do cheiro dos malfufos que vinha da cozinha, da casa que não existe mais.
Quão antigas podem ser as lembranças que ficam numa coisa, num lugar, numa cena? Como medir as notícias da velha TV de tubo em que vi as Torres Gêmeas explodindo, no dia 11 de setembro de 2001, lá pelas dez e pouco da manhã? Dezenove anos depois, o que ainda há para descobrir, que histórias ainda precisam ser contadas, que pedaços sobreviveram e quais, ao contrário, sumiram como o World Trade Center?
Tenho a impressão de que a pandemia recriou ou reforçou muitos dos nossos elos com as coisas e as memórias. Passamos mais tempo em casa do que a maioria de nós imaginava passar, produzindo, digerindo e compartilhando muito mais lembranças do que novidades.
Assim, o modo como nos relacionamos com o velho e o novo incide diretamente sobre o modo como nos relacionamentos com o contexto em geral. Assistimos ao tempo passar, aos mortos se acumularem, à esperança ceder ou se renovar. Nos apegamos ao que fica ou ao que vai, como os personagens de Albert Camus, exilados enquanto a peste se espalhava por Oran.
Uns estavam longe dos que amavam, outros distantes de seu país de origem. Uns queriam acelerar o tempo para decretar o fim da epidemia, voltar aos espaços públicos, estar novamente perto dos seus. Outros criavam fantasias para manter a sanidade. O que os unia era o fato de estarem exilados em seus mundos, eles, os objetos e as lembranças.