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Lembranças

Memórias de um tempo de exílios, falências e mudanças

Alguém escreveu, com razão, que vivemos um período de ruínas. De empregos e empreendimentos aos sistemas de saúde, da ética dos homens públicos ao bom senso do capitão, dos projetos para 2020 ao coração do meu pai

Públicado em 

19 jul 2020 às 05:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Flores
É tempo de preservar lembranças já que as falências estão por toda parte Crédito: Divulgação
Havia uma lupa entre os pertences que herdei na passagem do meu pai. Um pequeno artefato que, graças à engenhosidade de romanos e chineses do século VI antes de Cristo, permite enxergar com lente de aumento objetos que, de outro modo, quase não se vê.
Livros de letra miúda, as entrelinhas de um contrato, detalhes e entalhes de um móvel feito à mão. As fusas e semifusas de uma partitura desbotada pelo tempo. O porta-retrato posto no exato ponto que separa o esquecimento da obsessão. Objetos vistos com lente de aumento graças à engenhosidade de romanos e chineses do século VI antes de Cristo.
É a Física quem diz: com as lupas e suas lentes convergentes, temos uma imagem virtual, direita e maior de um objeto real. Para que a imagem se forme, o objeto deve estar entre o foco e o centro ótico da lente. O tamanho da imagem produzida na retina varia de acordo com o ângulo que o objeto ocupa no campo de visão.
A posição precisa ser firme, sem grandes variações. Caso contrário, letras miúdas, entrelinhas, detalhes, entalhes, fusas, semifusas, esquecimento e obsessão tornam-se um borrão, uma mancha, um rabisco imperfeito da ausência, da distância, da névoa e do descuido.
Alguém escreveu, com toda razão, que vivemos um período de ruínas. De empregos e empreendimentos aos sistemas de saúde, da ética dos homens públicos ao bom senso do capitão, dos projetos para 2020 ao coração do meu pai, as falências estão por toda parte.
Até o tempo anda bugado nos últimos meses, correndo contra si mesmo enquanto cancelamos projetos e celebridades, sovamos pão e incertezas, envelhecemos diante de sonhos, rotinas e encontros suspensos pela pandemia.
Vivemos, respiramos, trabalhamos, escrevemos, postamos. Abrimos portas para o essencial. Descemos escadas, evitamos elevadores. Lavamos a louça para em seguida sujar outra vez. Mesmo que a contragosto, adotamos novos hábitos. Pouco a pouco, construímos com o que temos à mão as memórias deste tempo de exílios, falências e mudanças.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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