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Homenagem a Tarracha

Sobre um motorista e a grandeza do trabalho que todos eles realizam

O motorista, como era Tarracha, faz fluir a atividade econômica, serve à convivência social e constitui um elo entre os seres humanos

Publicado em 24 de Fevereiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

24 fev 2021 às 02:00
João Baptista Herkenhoff

Colunista

João Baptista Herkenhoff João Baptista Herkenhoff
Motorista
Motoristas são essenciais à vida das cidades e à vida do país Crédito: standret/Freepik
O relevo que este texto procura dar a um motorista decorre do reconhecimento da importância e grandeza do trabalho que os motoristas realizam, essenciais que são à vida das cidades e à vida do país. O motorista faz fluir a atividade econômica, serve à convivência social e constitui um elo entre os seres humanos.
Somente nosso saudoso D. João Baptista da Motta e Albuquerque, ao que saiba, é que o chamava de Osmar. Sim, porque seu nome civil é Osmar Santos Nogueira. D. João, talvez pelo escrúpulo quanto ao dever de tratá-lo com a nobreza merecida, talvez simplesmente porque não gostasse do apelido, recusava-se a chamá-lo de outro nome que não Osmar ou, para ser ainda mais exato, sempre precedia o prenome de um vocativo carinhoso:
"Como vai, meu caríssimo Osmar?"
Com exclusão de D. João, todos o conhecem apenas pelo nome de guerra: Tarracha.  O apelido veio dos tempos em que cumpria o serviço militar no Batalhão de Caçadores sediado em Vila Velha. Uma janela nas dependências do Batalhão estava a despencar. O sargento de guarda teve a ideia de pedir ao recruta Osmar uma sugestão para solucionar o problema. Osmar, solícito, respondeu com uma receita simples e óbvia:
"Atarracha a dobradiça, sargento."
Esse conselho ao superior em apuros foi suficiente para que, com supressão da primeira letra do verbo, Osmar Santos Nogueira, dali para a frente, fosse bem mais conhecido como "Tarracha".
Tarracha trabalhava no mais tradicional e popular "ponto de táxi" de Vitória: o ponto da Praça Costa Pereira. Tarracha foi um exemplo de dignidade, educação, responsabilidade, seriedade. Um paradigma moral e humano, no exercício da profissão de motorista, como também um modelo como pessoa, na simplicidade de sua vida e na inteireza de seu caráter.
Esse trabalho árduo, de serviço à coletividade, de atendimento até mesmo gratuito a pessoas doentes e necessitadas, merece o aplauso da comunidade.
O relevo que este artigo procura dar, com toda justiça, a um motorista, a um trabalhador, remete-me a Cachoeiro, onde todos nós aprendemos belas lições. O sentido da igualdade das pessoas, por exemplo. E também a grandeza de todo trabalho humano.
Lembro-me, a propósito, de uma crônica de Rubem Braga. Fala de uma intensa discussão que houve em Cachoeiro, penetrando nos lares e nas escolas, espraiando-se pela nossa praça. Debatia-se a melhor denominação a ser conferida a uma instituição que veio a ser das mais importantes e tradicionais da cidade. Tratava-se do "Centro Operário E de Proteção mútua". 
Toda a discussão estava centrada nessa palavrinha "E". Venceu a presença do "E", com grande repercussão na postura da entidade. A palavra "E" consolidava uma tese política e social: o Centro Operário não seria apenas um "Centro Operário de Proteção Mútua". Estaria aberto a outros cidadãos da cidade, mesmo que não fossem operários, mas que quisessem comungar com os operários o ideal da solidariedade.
A questão da aliança dos oprimidos com eventuais apoiadores, mesmo que estes não sintam na própria pele o estigma da opressão, foi e é objeto de elucubrações do pensamento político, no Brasil e no mundo. É também plataforma de uma militância que alcança amplos setores da sociedade.
Como sempre, Cachoeiro tem a vocação da profecia. Há tantos anos atrás lá já se constituía um "Centro Operário E de Proteção Mútua".
Tenho grande honra de ser, desde minha juventude, membro do "Centro Operário E de Proteção Mútua", plantado na minha terra natal.
A homenagem que tributo ao Tarracha recua-me ao que aprendi e vivi em Cachoeiro.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

João Baptista Herkenhoff

João Baptista Herkenhoff João Baptista Herkenhoff

É juiz de Direito aposentado e escritor. Aborda temas atuais com uma visão humanista, com foco nos direitos humanos. Escreve às quartas

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