Hoje, 23 de dezembro, é uma data muito triste – lembra o assassinato do Padre Gabriel Maire. Muitas homenagens estão sendo prestadas à memoria do Padre Gabriel em associações de moradores, em assembleias religiosas, em centros de direitos humanos.
Não apenas em Cariacica, onde ele exerceu seu pastoreio, o Padre Gabriel será lembrado, mas em todo o território nacional, do Acre ao Rio Grande do Sul.
Está circulando um manifesto nestes termos: “Buscamos a verdade. Verdade em relação ao crime que tirou a vida do Padre Gabriel e em relação a todos os outros crimes que pelo nosso Estado e em todo o Brasil continuam sem solução”. “Queremos manifestar nosso repúdio a todo aquele que no Poder Executivo, Legislativo e Judiciário não cumpre seu papel de cidadão, servidor do povo. Também queremos afirmar que continuaremos lutando pela Justiça, nas organizações populares, na Comunidade, no Sindicato e na Política".
O apelo de Justiça contido nesse manifesto continua sem ser ouvido. O assassinato do Padre Gabriel Maire aconteceu no território da Grande Vitória, em 23 de dezembro de 1989. Já se passaram três decênios e o crime continua encoberto.
É mesmo possível que alguém se comprometa com causas populares, com transformação das estruturas políticas e sociais, em nome do Evangelho?
Muitos negam qualquer vinculação entre Evangelho e Política. Chegam mesmo a recorrer a uma frase bíblica para argumentar pela ilegitimidade do engajamento político, sob a luz da Fé Cristã. O texto invocado com frequência é muito conhecido: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus".
As teses que contradizem a pretendida separação entre Fé e Política também são muitas. Essas teses querem que a Fé ilumine a Política. Que a Fé faça desabrochar valores éticos e sociais e dê sustentação aos Direitos Humanos.
Jean-François Collange, professor de Teologia Protestante da Universidade de Strasbourg, mostra que, fundamentalmente, o traço de união indissociável entre Cristianismo e Direitos Humanos resulta de que o valor do homem, diante de Deus, não está nem na cor de sua pele, nem no seu sexo, nem no seu estatuto social, nem muito menos na sua riqueza, mas no fato de que em Cristo ele é aceito como filho de um mesmo Deus.
Isto de cada um, de sua parte, reconhecer-se como filho de um mesmo Pai conduz a uma fraternidade autêntica, base dos Direitos Humanos.