Hoje, dois de dezembro, é o Dia Nacional do Samba. A passagem desta data inspirou-me este artigo. Tratar de qualquer outro assunto, no artigo de hoje, fugindo do tema Dia Nacional do Samba, é agir como um desmancha-prazeres.
O desmancha-prazeres é a pessoa que deixa todo mundo calado e muda o clima reinante, de bom para ruim. Numa roda de conversa sobre música popular brasileira, ele resolve defender a tese de que música de verdade só mesmo a de Mozart e Chopin. Tudo o mais é lixo.
O desmancha-prazeres é, decididamente, um indivíduo que só com muita paciência pode ser suportado. Quero ficar livre desse estigma.
Na presença entusiasmada da gente mais simples do povo, em escolas de samba, vejo a profunda busca de identidade, tão forte na alma humana. Quem pertence a uma escola de samba tem endereço, raiz, deixa de ser alguém sem lenço e sem documento.
Embora eu não seja um carnavalesco (se fosse, estaria aposentado em razão da idade), vibro com as escolas de samba e, mais ainda, com o rosto feliz dos sambistas. Esses rostos me enternecem.
O desfile de uma escola de samba é o teatro do povo, e o teatro, por uma longa tradição histórica, construiu consciências.
Temas de escolas de samba foram vetados na mais recente ditadura brasileira. Pela luta do povo, conquistamos a democracia.
Hoje vivemos no Brasil um clima democrático, onde as escolas de samba podem satirizar a presidente da República, os governadores, os prefeitos, os vereadores, os deputados, os senadores, os magistrados. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo povo, que tesouro sem preço é a liberdade.
Bela saga do povo brasileiro, na luta para “ser pessoa”: o sambista que se torna pessoa sambando; os populares que se tornam pessoas através da certidão de nascimento, do título de eleitor e da carteira profissional.
Vamos celebrar o samba, a alegria, o otimismo. Abaixo a tristeza, o mau-humor, o pensamento negativo.
Viva Ataulfo Alves. Baden Powell. Beth Carvalho. Bezerra da Silva.