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Pandemia

Que país é esse onde tudo pode ser feito e desfeito ao mesmo tempo?

Neste instante que escrevo, minha perplexidade testa positivo quando vejo os eternos foliões pulando, se agarrando, contaminando – e não é carnaval. É uma forma de loucura geral

Públicado em 

09 fev 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Servidor da Fiocruz prepara vacina de Oxford/AstraZeneca para a primeira aplicação no Brasil.
Servidor da Fiocruz prepara vacina de Oxford/AstraZeneca para a primeira aplicação no Brasil. Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Eles te vêem, mas você não os vê. Porque não existem. Não foram criados por Deus, Jeová, Alá, Buda ou o Demônio. Surgiram espontaneamente do nada. Não têm casa, não podem ficar na rua; nem sequer, presos.

Um país que não respeita o povo, em todos os campos, não pode funcionar. A maioria desses ultramiseráveis não sabe ler, escrever, comer, por falta de prática, e têm grande parte de seus filhos mortos no primeiro ano de vida. Eles têm nas vias públicas espaço e esmolas. Os abrigos operam como jaulas mal geridas, isso onde existem. Quem aguenta morar nessa modalidade de coisa alguma?

Enquanto isso, o sistema policial não dá conta das graves violências, com mortes e todo o tipo de inferno. Ninguém rouba e assassina os moradores de rua, porque eles não existem. Fazem parte bizarra de uma arte incompreensível.
O sistema oficial de proteção policial dá murro em ponta de faca para executar tarefas. A parte tragicômica dessas operações do tipo artista contra bandido é o enfrentamento. O povo das favelas se organizou ao longo de todas essas décadas de modo que constituem um sistema funcional e protegido à sua maneira. Tem acesso a uma modalidade de lei que só eles conhecem. É um outro país.
Nas instâncias judiciárias oficiais, para cada lei tem outra em sentido contrário. Que país é esse onde tudo pode ser feito e tudo pode ser desfeito ao mesmo tempo?
Os maiorais não discutem nada com o povo. As propagandas eleitorais dedicam-se ao verbo fazer. Fazer isso, fazer aquilo, que aliás não fazem. As coisas importantes são mostradas para a plebe só pra dar gostinho e provocar ilusão.
Cadê Zé Dirceu e companhia? Cadê a fortuna capturada pela Operação Lava Jato? Etc etc etc. A senhora não sabia que ao deixar tudo como está, só reclamando, fazemos parte da bandidagem passiva?
País religioso, o Brasil vive de promessas.
Agorinha mesmo, neste complexo psicopatológico atribuído a um único vírus, nota-se a distância entre o respeitável público, os palhaços e os proprietários do circo.
Confesso que me surpreendi com a inclusão, nesta pandemia, dos Estados Unidos. Talvez a culpa seja da empáfia. Tipo o ataque covarde às Torres Gêmeas de Nova York. Dois aviões imensos penetram na cidade, capital do mundo, sem nenhuma defesa, e fazem aquela covardia. A verdade é que nossos irmãos do Norte fazem suas escolhas à sua maneira.
Neste instante que escrevo, percebendo o pânico explícito ou não do bravo povo brasileiro, minha perplexidade testa positivo quando vejo os eternos foliões pulando, se agarrando, contaminando – e não é carnaval. É uma forma de loucura geral, tipo psicose, que cria um sistema mental que os permite quebrar todas as regras de sobrevivência. A onipotência cria a loucura maníaca e “vamos todos nos contaminar!''.
Recebi a seguinte historinha de humor, sempre o humor:
Um médico humanitário, para efeito de pesquisa, quis avaliar a diferença da aceitação das vacinas segundo as personalidades. Então decidiu vacinar um inglês, um francês, um alemão e um norte-americano. Todos em um clima muito resistente. 
Disse ao inglês:

— Tenho aqui a sua vacina.


— Não quero, dispenso.


O médico insistiu:

— As pessoas com a classe e elegância dos ingleses devem se vacinar.
— Pode vacinar, disse ele.

Dirigiu-se então ao alemão:

— Agora é a tua vez.
— Não, muito obrigado.
— Isto é uma ordem.
— Ah, então pode.

Falou com o norte-americano:

— Agora é a tua vez.
— Nem por hipótese, disse o americano.
— Bem, seu vizinho se vacinou.

O norte-americano ofereceu o braço para vacinar.
E finalmente dirigiu-se ao francês:

— Agora é o senhor.
— Nada me fará vacinar, respondeu ele.

O médico tentou de tudo para motivá-lo. E nada.
Então, tentou a derradeira motivação:

— Na verdade, me enganei, os franceses não têm direito à vacinação.
— O quê? Eu não tenho direito? Isso é um absurdo — gritou. E se deixou vacinar.

Dorian Gray, meu cão vira-lata, latiu em português.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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