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Letícia Gonçalves

Com a máquina na mão e o apoio de Casagrande, por que Ricardo ficou para trás?

Emedebista ainda está no páreo, disputa o governo do ES no 2º turno contra Lorenzo Pazolini. Mas o resultado de domingo (4) tem sabor de derrota

Publicado em 05 de Outubro de 2026 às 04:38

Públicado em 

05 out 2026 às 04:38
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves Letícia Gonçalves
Na escola Ilha Novo Mundo, o candidato chegou na escola por volta das 8h30 da manhã.
Ricardo Ferraço (MDB) ao votar, na manhã de domingo (4). Foto: Jaciele Simoura
O governador Ricardo Ferraço (MDB) conta com o apoio de 65 dos 78 prefeitos de municípios capixabas  — entre eles todos os chefes de Executivos municipais da Grande Vitória —, com o endosso do ex-governador Renato Casagrande (PSB) e de diversas lideranças políticas. 

O emedebista tem a maior e mais forte coligação partidária entre os candidatos ao Palácio Anchieta. O governo dele é bem avaliado, o de Casagrande, mais ainda. A maioria dos eleitores (62%), de acordo com pesquisa Quaest publicada em 25 de setembro, acha que o socialista merece eleger o sucessor.

Ricardo comanda o Palácio Anchieta desde o início de abril, tem a máquina na mão e a visibilidade que o cargo lhe confere.

Em resumo: está com a faca e o queijo na mão. Mesmo assim, o resultado nas urnas de domingo (4) foi melancólico para o emedebista.

Ele até passou para o segundo turno, mas está 15,59 pontos percentuais atrás do ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos). Reverter isso vai ser difícil.

Considerando que, até pouco antes da véspera do pleito, o governador liderou as pesquisas de intenção de voto, o sabor é de derrota. 

Por que Ricardo não conseguiu capitalizar os dados positivos listados nos primeiros parágrafos deste texto?

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Vou destrinchar a resposta nas linhas abaixo, mas aqui vai um spoiler: a onda bolsonarista pode ter sido preponderante na reta final a favor de Pazolini, mas isso, isoladamente, não explica o que aconteceu. 

Uma espécie de "choque geracional", ou ímpeto por um "novo ciclo", e aspectos do próprio perfil de Ricardo também têm de ser levados em conta.

O emedebista é um político experiente, tem conhecimentos técnicos e transita bem em diversos setores (à exceção da esquerda). 

Falta a ele, contudo, carisma e um certo jogo de cintura. Não que Pazolini tenha essas características de sobra, muito ao contrário, mas Ricardo é um candidato mais "pesado".  

A ONDA BOLSONARISTA

Foi Casagrande quem fez uma primeira análise da situação. 

Em entrevista ao repórter da TV Gazeta Álvaro Guaresqui e para a equipe de A Gazeta e CBN Vitória durante a superlive da apuração, logo após o pleito, o ex-governador afirmou que  "tivemos no estado um resultado muito polarizado e com muita ideologia".

"Parte das pessoas vota pela ideologia, não pelo resultado", cravou Casagrande.

"O candidato (Pazolini) cresceu na última hora especialmente pelo campo da direita no estado", completou.

Ok. O fator ideológico, a onda bolsonarista, é algo a ser levado em conta, mas há diversos atenuantes.

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E Pazolini é o candidato apoiado por Flávio.

Só que o ex-prefeito não usou a imagem do presidenciável na campanha. Nem mencionou o nome dele espontaneamente e tampouco se atrelou publicamente à ala mais radical do PL, representada pelo senador Magno Malta.

A rigor, Pazolini não entrou em "brigalhada ideológica", assim como Ricardo.

Tanto o ex-prefeito quanto o governador são homens de centro-direita.

O SOBREVIVENTE

Em 2022, a eleição também foi polarizada e Casagrande, que disputava a reeleição, passou um sufoco contra o então candidato bolsonarista ao Palácio Anchieta, Carlos Manato (PL).

Mas o socialista não saiu do primeiro turno tão fragilizado quanto Ricardo. 

Naquele ano, Casagrande largou na frente com 46,94% dos votos contra 38,48% de Manato.

Conseguiu emplacar o voto CasaNaro e ampliou a vantagem no segundo turno.

Agora, o ex-governador, um político de centro-esquerda eleito senador, diz ser um "sobrevivente" da polarização.

Ricardo, entretanto, "sobreviveu menos" que o aliado.

O voto RicaNaro não colou.

É que, como o candidato do PT Helder Salomão frisou várias vezes, "Ricardo não é Casagrande".

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CASACARDO

Mesmo antes de Pazolini ultrapassar Ricardo, movimento detectado pela pesquisa Quaest publicada na véspera do pleito, as intenções de voto do governador não eram proporcionais aos percentuais de avaliação positiva do governo dele (40%) e tampouco da avaliação positiva do governo Casagrande (60%).

A campanha do emedebista foi atrelada à figura do ex-governador, mas nem mesmo o voto CasaCardo vingou.

Pouco antes do pleito, a campanha de Ricardo reforçou: "Quem vota Casagrande vota Ricardo".

Mas 275.964 eleitores não seguiram essa dica. Casagrande recebeu 995.361 votos. Ricardo, 719.397.

Transferência de voto, e de simpatia, não é ciência exata.

Casagrande é mais "leve" que Ricardo e nem recebeu tantos votos quanto indicavam as especulações sobre o favoritismo dele na disputa pelo Senado. 

Ainda assim, ficou em primeiro lugar, seguido de perto por Evair de Melo (Republicanos), que foi escolhido por 982.978 eleitores.

CHOQUE GERACIONAL, MUDANÇA DE CICLO

Antes de Ricardo se consolidar como o candidato de Casagrande ao Palácio Anchieta, o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), e seus aliados defendiam a tese de que a eleição de 2026 seria "geracional", ou seja, que os eleitores apostariam em alguém de uma geração mais jovem, em oposição a políticos "tradicionais".

Isso seria reforçado pelo fim do revezamento no poder entre Paulo Hartung (PSD) e Casagrande, que durou 23 anos.


O cenário estaria favorável a um "novo ciclo", liderado por um novo rosto. 
Ricardo, que foi vice de Hartung e de Casagrande, portanto, não se encaixaria no perfil.

Não estou dizendo que se Arnaldinho fosse o candidato governista ele teria um desempenho melhor.

Nunca saberemos.

Na campanha do primeiro turno, porém, Pazolini fez questão de se apresentar como "o novo"  e rotular Ricardo como "velha política".

E se esse discurso "pegou"?

E SE RICARDO VIRAR

Está complicado para Ricardo virar o jogo, mas não é impossível.

Aqui escrevi que ele não venceu o pleito (ou não passou ao segundo turno em primeiro lugar) apesar de tudo que tinha a seu favor.

Se ele e seus aliados conseguirem provocar mais uma reviravolta e derrotar Pazolini no segundo turno, não me furtarei a listar como o emedebista venceu, apesar de todas as dificuldades.  

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Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no site Gazeta Online/CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, tambem como repórter. Exerceu a função de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Letícia Goncalves.

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