Transferência de voto, de prestígio e de carisma não é ciência exata. Às vezes, não é nem possível, mas, nas eleições, é melhor um candidato ter o apoio de lideranças políticas do que não ter. Além disso, quem conta com o endosso, por exemplo, de alguém que comanda uma prefeitura pode ter ainda a máquina municipal trabalhando a seu favor, espera-se que dentro da lei.
Não à toa, os prefeitos dos municípios da Grande Vitória deixam evidente quem são seus favoritos na disputa pela Câmara dos Deputados.
Essa é uma faca de dois gumes. A vitória do candidato apoiado demonstra a força do prefeito em questão. A eventual derrota, porém, marca pontos negativos no termômetro de prestígio político.
Vejamos:
A FEDERAL DO ARNALDINHO
Em Vila Velha, a ex-secretária estadual de Governo da gestão Renato Casagrande (PSB) Emanuela Pedroso, a Manu (PSB), é "a federal do Arnaldinho".
E isso não é apenas modo de dizer. A frase está na boca do prefeito Arnaldinho Borgo (PSDB) em discursos públicos e também estampada no material de campanha da candidata.
Manu foi prefeita de Alto Rio Novo (2013-2016) e apenas recentemente radicou-se na cidade canela-verde. Em 2025, filiou-se ao PSB e passou a presidir o diretório municipal do partido.
A sigla é aliada a Arnaldinho, embora a relação tenha passado por um breve rompimento em fevereiro, quando o tucano se juntou ao então prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos), que é adversário do grupo político integrado pelo PSB.
Tudo voltou às boas quando Arnaldinho retornou ao círculo liderado por Casagrande e por Ricardo Ferraço (MDB).
Mas como Manu assumiu o protagonismo no palanque do prefeito?
> Quer receber as publicações da coluna Letícia Gonçalves em primeira mão pelo WhatsApp? Clique aqui
Bem, em 2022, "o federal do Arnaldinho" foi Victor Linhalis, o Dr. Victor, então vice-prefeito de Vila Velha.
Foi muito graças ao prefeito que o aliado conquistou o mandato na Câmara.
O prefeito e Dr. Victor, entretanto, afastaram-se depois que Arnaldinho virou presidente estadual do PSDB. O prefeito tentou montar uma chapa competitiva de candidatos a deputado federal no ninho tucano e contava com Victor Linhalis para tal.
Àquela altura do campeonato, às vésperas do fim do prazo para filiações de candidatos, contudo, só um milagre colocaria de pé uma chapa do PSDB. Victor, por instinto de sobrevivência, migrou para o PSB, sigla pela qual disputa a reeleição.
O preço dessa tábua de salvação foi perder o apoio de Arnaldinho.
Manu é apoiada diretamente também por Casagrande e, nos bastidores, a aposta é que Arnaldinho abraçou a candidatura dela a pedido do ex-governador.
O prefeito participa de atos de campanha de outros candidatos a deputado federal, como os do deputado estadual Thyago Hoffmann (PSB), e tem simpatia até por candidatos de fora da coligação da qual o PSDB participa, a exemplo do ex-prefeito Neucimar Fraga (PL).
Mas a predileção é mesmo por Manu.
Arnaldinho também está engajado no esforço para garantir as vitórias de Ricardo no governo e Casagrande no Senado.
O FEDERAL DO EUCLÉRIO
Enquanto isso, na Serra, o candidato a deputado federal do prefeito Weverson Meireles (PDT) é Serginho Vidigal (Podemos).
Como o nome sugere, Serginho é filho do ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT), que foi o principal apoiador de Weverson em 2024.
A rede de apoio está se retroalimentando, digamos assim.
Serginho é estreante nas urnas. A candidatura dele é bastante ancorada na figura do pai, mas o PDT, cujo maior expoente no estado é justamente Vidigal pai, não conseguiu montar uma chapa de candidatos a deputado federal.
Por isso, Serginho é candidato pelo Podemos, partido aliado ao prefeito na Serra.
Weverson, e Sérgio Vidigal, claro, percorrem as ruas da cidade ao lado de Serginho num esforço para elegê-lo.
Os três também estão na campanha de Ricardo Ferraço e Renato Casagrande.
O FEDERAL DA CRIS
Em Vitória, a prefeita Cris Samorini (PP) escolheu apoiar Erick Musso (Republicanos) como candidato a deputado federal.
O prefeito de Guarapari, Rodrigo Borges (PP), saiu do Republicanos recentemente, assim como o deputado federal Amaro Neto (PP). Os dois, assim, deixaram a sigla de Pazolini e migraram para o grupo de Casagrande e Ricardo. O PP está na coligação do ex e do atual governador.
Rodrigo Borges afirmou à coluna que o candidato dele a deputado federal é Amaro. E apenas Amaro:
"Alguns me chamaram para reuniões e eu falei o quanto eles ajudaram a cidade: Thyago Hoffmann (PSB), Marcelo Santos (União), Da Vitória (PP), Bruno Resende (União), Messias Donato (União). Todos que ajudaram a cidade eu expliquei a importância da ajuda. Mas meu candidato é Amaro. Quem mais ajudou a cidade com recursos foi Amaro Neto"
HÁ MAIS EM JOGO
Como já explicitado no início deste texto, não necessariamente os eleitores de uma determinada cidade vão votar no candidato a deputado federal sugerido pelo prefeito. Mas mesmo que o postulante em questão angarie muitos votos graças ao apoio recebido, isso pode não bastar.
É que a eleição de deputados ocorre no sistema proporcional. Não é apenas o desempenho do candidato que conta e sim o de toda a chapa.
Mais colunas de Letícia Gonçalves