A Covid-19 tirou definitivamente a enfermagem da invisibilidade e do lugar de ocultamento histórico. Tal lugar lhe foi destinado em razão, dentre outras, de constituir-se uma profissão exercida tipicamente por mulheres em uma sociedade patriarcal, que somente valoriza o trabalho dos homens, reservando a elas tudo aquilo que se relaciona tão somente com o espaço privado da casa e as atividades que aparentemente lhe são próprias, tais quais o cuidado da moradia, da alimentação, dos filhos, do marido, gestando, amamentando e provendo as necessidades de cuidado da prole.
Associadas exclusivamente ao trabalho doméstico, compreendido e discursivamente construído como “dever ser” e por vocação natural do gênero, por “desígnio divino” que, em tese, as colocariam como submissas às vontades do marido, muito conveniente à manutenção dos privilégios masculinos, as mulheres tiveram destinado um não lugar no espaço público, no qual a competência, as habilidades, a inteligência criativa, o trabalho produtivo, de importância social e de relevância científica foram abafados e muitas vezes usurpados indevida e criminosamente pelos homens.
A história é pródiga em exemplos de homens que usurparam, naturalmente, como se lhes fosse por direito, produções intelectuais e artísticas de mulheres fantásticas que, emudecidas por uma cultura machista que lhes impunha o silêncio e o confinamento do lar, assistiram a história dar crédito indevido e injusto àqueles que, apenas por serem homens, passaram as nossas memórias com prestígio, credibilidade, valorização social e econômica que não lhes eram, muitas vezes, por direito.
Homens que se apropriaram das obras artísticas de mulheres, tal qual Rodin se “apropriou” das belíssimas esculturas produzidas com sensibilidade e técnica por Camille Claudel, que faleceu na obscuridade. Homens que se apropriaram das formulações científicas e construção teórica de mulheres, tal qual Einstein se apropriou da Teoria da Relatividade formulada em parceria com Mileva Einstein, sua esposa, física e matemática brilhante que muitas vezes se destacou mais do que ele nos resultados acadêmicos, mas que não teve a visibilidade correspondente à sua capacidade intelectiva.
Homens que se apropriaram da fantástica descoberta de Hedy Lamarr, que somente após a sua morte teve reconhecido seu importante invento sobre comunicação sem fio que nos possibilitou chegar a tecnologias como Wi-Fi, Bluetooth e GPS, tendo que, em vida, assistir seu invento sendo desenvolvido pela Marinha dos Estados Unidos sem que lhe fosse dado o crédito devido. Homens como Watson e Crick, que se apropriaram da descoberta de Rosalind Franklin, biofísica, sobre a estrutura do DNA, tendo publicado seus achados científicos sem lhe dar o devido crédito, ganhando o Prêmio Nobel de Medicina que seria devido a ela e não a eles.
A enfermagem, milenarmente exercida como ocupação, voluntariamente ou por imposição social, por mulheres que cuidavam de seus filhos, de seus maridos e das pessoas de suas comunidades quando essas adoeciam ou quando do nascimento de crianças, foi transformada, a partir do século XIX, em profissão científica pela notável Florence Nightingale. Com sua magistral inteligência, competência na gestão, envergadura científica, habilidade social e espírito humanitário, ela proporcionou ao mundo o que se denomina hoje de enfermagem científica e que no Brasil teve importante marco na criação da Escola de Enfermagem Anna Nery, no Rio de Janeiro, que aos poucos foi se capilarizando por todo o país.
A categoria da enfermagem, formada no Brasil por enfermeiras (os), técnicas (os) e auxiliares de enfermagem e obstetrizes, compõe hoje um contingente de 2,4 milhões de trabalhadores e trabalhadoras, que atuam em todas as áreas do setor da Saúde, sendo indispensáveis à vida e à saúde das pessoas. Sem esses trabalhadores e trabalhadoras teríamos sido dizimados por essa pandemia que passou a exigir deles um sacrifício ainda mais robusto, radical e profundamente injusto do que já vinham oferecendo à sociedade.
Foram chamados de anjos, receberam palmas de alguns, foram tratados pela imprensa como heróis ao se oferecerem em sacrifício por amor à humanidade. Se apresentaram diante do vírus mortal sem equipamentos de segurança, sem logística e sem gestão da segurança no trabalho, sem lugar para descanso nos hospitais. Foram convidados a cuidar daqueles cujas vidas nos eram relevantes e pelos quais chorávamos, orávamos e sofríamos.
Deixaram seus filhos e familiares em casa enquanto corriam de um emprego para outro, se expondo em transporte público e sabendo dos riscos diários da convivência íntima e perigosa com o vírus durante a prestação dos cuidados que não duram minutos apenas, como as atividades de outros profissionais do setor da Saúde, mas que se prolongam durante todo o dia nas atividades típicas da enfermagem.
Seja na aplicação de medicamentos, na realização de procedimentos complexos, na manipulação de equipamentos respiratórios, nos cuidados inerentes à sobrevivência humana, no desgaste emocional de serem os únicos, ou os que mais perto estão daqueles que vivem o drama da solidão, do medo da morte e da saudade dos familiares, seja no atendimento ambulatorial sistemático nas unidades de saúde, nos prontos-socorros, nas salas de vacinação, o certo é que nenhum outro profissional ficou tão exposto aos riscos da Covid como os trabalhadores e trabalhadoras da enfermagem.
Foram cerca de 700 mortes desses profissionais no país. Colocados na linha de frente do enfrentamento da pandemia, foram lançados ao sacrifício sem que lhes fossem fornecidos os Equipamentos de Proteção Individual obrigatórios, locais de descanso e condições de trabalho seguras. Sem a garantia de direitos básicos ao exercício profissional não precarizado, a maior força de trabalho da saúde no Brasil continua relegada ao desprezo institucional que não lhes garante dignidade e reconhecimento.
Mas, independente da Covid-19, há uma injustiça histórica a ser reparada. Esses trabalhadores não são remunerados devidamente considerando a relevância da prestação de serviços que nos oferecem. Nas mãos deles estão nossos bens mais preciosos, a nossa vida e nossa saúde e também daqueles que nos são mais caros.
São eles que têm conduzido o planejamento e a logística dessa grande empreitada nacional que é a vacinação contra a Covid-19, mas que ao longo da história, quando ninguém se lembrava da existência deles, também conduziram com competência o Plano Nacional de Vacinação do Brasil, considerado um dos mais organizados e eficazes do mundo.
São esses trabalhadores e trabalhadoras que recebem e cuidam de nossos filhos e netos nas UTIs neonatais e infantis, garantindo que sobrevivam aos riscos que qualquer internação nos impõe. São eles, de um modo geral, os responsáveis pela gestão das milhares de unidades de saúde espalhadas pelo país, atuando no cuidado direto e no planejamento e execução das ações de saúde coletiva.
São professores universitários que garantem uma produção científica vigorosa e relevante, com respeito à interdisciplinaridade das ciências, formando profissionais competentes e éticos a atuarem nas diversificadas áreas em que desempenham suas atividades.
São os professores de ensino médio da enfermagem que têm que se superar pedagógica e tecnicamente para estimular estudantes cansados, normalmente mulheres originadas de duplas e triplas jornadas de trabalho, de forma a capacitá-los para o exercício de funções que exigem conhecimento e atenção especiais.
Não há mais o que discutir. Não há mais o que negociar. Independente da pandemia, esses profissionais têm que ter uma reparação dessa injustiça histórica que os colocou no lugar de convidados ao sacrifício, doadores de suas vidas e de sua saúde, por amor à arte, por doação, por “vocação divina” e por imposição de gênero, para que nós tivéssemos preservadas as nossas próprias vidas e para que a sociedade possa ser preservada, nessa complexa organização na qual o progresso da humanidade nos permitiu chegar.
Precisamos tratar a enfermagem como categoria profissional com direitos a serem reconhecidos e não como anjos a doarem suas vidas, sua saúde e seus saberes para o bem da humanidade, de forma voluntária, gratuita, sem remuneração digna e sem o respeito a que todo o trabalhador tem direito.
A aprovação imediata do Projeto de Lei n.º 2564/2020 com fixação de um piso salarial para a categoria, é a condição primeira de reconhecimento e de reparação de uma injustiça histórica. Os demais reconhecimentos, também devidos e bem vindos, deverão ser tratados em outro campo, o das afetividades necessárias ao equilíbrio emocional e bem estar social.
O reconhecimento agora, necessário, urgente e justo, é a aprovação do PL nº 2564/2020, com o amplo e irrestrito apoio parlamentar e da sociedade.
Enfim, sem salário justo não há trabalho decente.