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Mortes na pandemia

ES já perdeu mais de 70 profissionais de saúde para a Covid-19

Ao todo, foram 76 mortes de trabalhadores de saúde desde o início da pandemia, em março de 2020, até o dia 5 deste mês. Maioria estava na linha de frente contra a doença

Publicado em 18 de Abril de 2021 às 13:21

Aline Nunes

Publicado em 

18 abr 2021 às 13:21
Médicos realizam atendimento a paciente entubado
Médicos durante plantão: profissionais de saúde da linha de frente são mais suscetíveis à contaminação pela Covid-19 Crédito: Freepik
Na linha de frente para o combate à Covid-19, os profissionais de saúde estão em contato frequente com pessoas infectadas pelo coronavírus e, portanto, mais suscetíveis a contrair a doença. 
No Espírito Santo, foram 76 mortes de trabalhadores de saúde desde o início da pandemia, em março de 2020, até a primeira semana de abril deste ano. O levantamento foi feito pelos Conselhos Regionais de Medicina (CRM) e de Enfermagem (Coren) no Estado.
Entre os trabalhadores da áreade saúde, os médicos foram os que mais morreram: 32 óbitos. Segundo o CRM, há  11.807 profissionais na ativa no Estado. A primeira morte na categoria foi registrada pela entidade em junho de 2020. Naquele mês, foram 5 óbitos. Depois, houve uma redução na média mensal até que, em dezembro, a maior incidência: 8 médicos morreram no final do ano. No primeiro trimestre de 2021, já houve mais 11 mortes.
"Lamentamos muito essas mortes. Estavam praticamente todos na linha de frente de combate à Covid, situação em que o risco de contaminação é maior. Infelizmente, somos grupo de risco",  observou Aron Stephen Toczek Souza, vice-presidente do CRM-ES.
A presidente do Coren-ES, Andressa Barcellos, analisou dados dos boletins epidemiológicos que a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) disponibiliza e, das 76 mortes, constatou que houve 14 entre técnicos e auxiliares de enfermagem e de um enfermeiro. 
No total de óbitos, descontados os 32 médicos, ela disse que ainda há casos de outros profissionais que atuam em hospitais e unidades de saúde, tais como agentes de saúde, fisioterapeutas e de áreas administrativas.

SOFRIMENTO

Nesse grupo está a agente de saúde da Serra Rosimery Santos Ferreira, de 47 anos, que morreu em maio do ano passado, depois de apenas dois dias internada. Decorrido quase um ano, a morte ainda causa muito sofrimento para a filha Sara Ferreira, que prefere não falar do assunto, e toda a família.
Ela resumiu o sentimento em poucas palavras: "Está sendo muito difícil. É uma perda muito grande e ainda estamos lidando com tudo isso. Perder a mãe é extremamente triste, ainda mais uma mãe tão presente e amiga como ela era", desabafou.

IMPACTOS NOS PROFISSIONAIS

A Covid-19, mesmo quando não afeta diretamente os profissionais pela infecção e morte, é ainda responsável por atingir os trabalhadores de outras maneiras, como descreveu o enfermeiro Enoch Barcelos Bastos que, num intervalo de dois meses, perdeu a tia, aposentada da saúde e que havia sido a sua inspiração para seguir na área, e dois primos. Além dos familiares, a morte de colegas também é um impacto no dia a dia. 
"Olha, não está sendo fácil. O vírus não ataca só as células do paciente, mas também o emocional. De quem está internado, porque é uma solidão longe dos familiares, e também o dos profissionais, por essa rotina. Mas temos que ter esperança de dias melhores, ter um olhar otimista e acreditar que vamos superar tudo", afirmou. 
Essa é uma percepção também de  Eunice da Encarnação Garcia da Silva e Sousa, presidente do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da 15ª região (Crefito). Para ela, o trabalho das duas categorias profissionais que, juntas, somam 4.659 pessoas no Estado, vai permanecer intenso, "uma vez que as consequências físicas e psicossociais dessa doença perdurarão por um prazo que ainda desconhecemos."
O médico Romerson Ribeiro Silva, 32 anos, foi um dos primeiros vacinados contra a Covid-19 no ES
O médico Romerson Ribeiro Silva, 32 anos, foi um dos primeiros vacinados contra a Covid-19 no ES Crédito: Wing Costa/Secom ES

ESPERANÇA COM A VACINAÇÃO

A expectativa é que, com o avanço da vacinação dos trabalhadores da saúde no Espírito Santo, os indicadores de infecção e morte reduzam gradativamente. 
"A pandemia desacelerou algumas áreas de atuação, ao mesmo tempo em que abriu novos campos de trabalho e trouxe maior visibilidade sobre a ação das profissões para a sociedade. Contudo, o risco de infecção e as consequentes contaminações, que chegaram a 805 fisioterapeutas e 62 terapeutas ocupacionais, nos trouxeram a perda inestimável de dois colegas de profissão e tantos outros profissionais de saúde que lamentamos profundamente. A vacinação nos traz esperança; esperança de que os profissionais e a sociedade em geral estejam mais seguros e protegidos para seguir adiante", ressaltou Eunice Silva e Sousa.
Aron Souza pontuou que não há registro de médicos que tenham morrido por Covid-19 após concluir o ciclo de imunização, com duas doses de vacina. "Espero que a proteção seja mesmo eficiente para evitar o agravamento dos casos e mortes."  
O vice-presidente do CRM-ES reforçou, ainda, que, mesmo imunizadas, as pessoas devem manter protocolos de biossegurança, como uso de máscara, distanciamento e higienização frequente das mãos.
Numa análise simples de dois períodos da pandemia no Espírito Santo, Andressa Barcellos já notou uma tendência de queda. De 7 de dezembro a 4 de janeiro, foram 2.533 casos entre trabalhadores da saúde  - uma média de 90,5 casos por dia. No intervalo de 5 a 29 de março, houve 891 novos registros entre profissionais da área, o equivalente a 37 casos diários. 
A presidente do Coren lembrou, no entanto, que a vacinação não impede a contaminação, e sim diminui o risco de agravamento e morte. "A preocupação continua sendo a de levar o vírus para casa e contaminar as pessoas da família", afirmou Andressa, acrescentando que a fase atual da pandemia no Espírito Santo tem variantes mais infecciosas e letais. Por essa razão, a vacinação precisa ser em massa para reduzir o risco para toda a população. 
De acordo com o painel de vacinação da Sesa, com atualização diária sobre a campanha, o Estado já recebeu, até esta sexta-feira (16), 993.620 doses, das quais 969.866 foram distribuídas aos municípios. Entre trabalhadores da saúde, 136.498 receberam a primeira dose. Já a segunda dose foi aplicada em 123.462 pessoas da área. 

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