Por séculos e séculos, sempre houve os que se colocaram entre nós e a peste. Sempre tivemos junto de nos essas corajosas cuidadoras e cuidadores que desafiavam o destino e o barqueiro da morte para trazer vida e luz.
Nossa história poderia dizer, portanto, de profissionais da saúde que atuaram durante a peste em Atenas, no século V a.C., ou durante a praga de Justiniano no século VI d. C, ou na grande peste do século XIV, ou ainda como no século XIX e XX nas grandes pandemias de peste e gripe. Aqueles que precisavam cuidar da doença sem conhecê-la em sua natureza foram sempre os que apresentavam a maior mortalidade.
A história parece se repetir infinitamente. Segundo o filósofo, a história pode se repetir como tragédia ou como farsa. É de um ridículo não garantirmos a proteção para os que cuidam e é de um ridículo sem precedentes, com todo conhecimento acumulado, deixarmos os profissionais de saúde tão expostos. É sobre essa comédia burlesca e trágica que precisamos falar.
Prólogo: entra o narrador. A peça se desenrola no Brasil de 2020, mas poderia ser em muitas pandemias do passado. Os heróis, esquecidos, sem as honras devidas da guerra, serão lembrados nos atos que irão ocorrer. Eles representam muitos heróis de tempos imemoriais, mas repetem sua saga entre cenários de farsa, tragédia e promessas.
Primeiro ato: dos heróis. Os profissionais de saúde, heróis anônimos dessa guerra, se apresentam sem escudos, sem armamentos e com mirrados soldos. Faltam equipamentos de proteção, pois não estávamos preparados; faltam medicamentos, pois não investimos em pesquisa. Sobram salários degradantes e longas jornadas. Nossos heróis entram em cena sem proteção e sem retaguarda. Começa a batalha.
Segundo ato: da batalha. A batalha começa sem nenhum conhecimento do inimigo, sem preparo do campo e sem estratégia. Inicia-se a compra de equipamentos para o combate, mas faltam pessoas para operá-los. A estratégia improvisada é colocada em ação por pessoas que nunca foram ao campo de guerra e que desconhecem as armadilhas. Os generais são imprudentes, o plano é equivocado e é nesse terreno pantanoso que lutam nossos heróis. A luta foi extenuante. O inimigo, que parecia invencível, começa a mostrar os primeiros sinais de retirada. Alguns campos são reconquistados e começa a batalha final, por fim, vitoriosa.
Terceiro ato: dos despojos da batalha. As recompensas pela vitória não serão divididas igualmente. Há os que sempre terão a posse dos mais valiosos despojos. Haverá dúvida de qual parte da guerra, com suas incertas estratégias, foram vencidas pelos combatentes. Na dúvida, a história mostra que não há verdades, há narrativas. A narrativa será a dos vencedores sobre os vencidos. O tempo contará a história de bravos generais que pensaram nas estratégias e venceram.
Epílogo: antes da última cena e das cortinas se fecharem, é preciso que o narrador conte a história de quem viveu esse tempo. Entre heróis, batalhas e despojos, os grandes vencedores foram os que, no momento mais sombrio, permaneceram firmes em seus postos. A batalha que permitiu a vitória nessa guerra não foi travada nesses campos. De fato, essa luta se iniciou há mais de 30 anos, com a implantação do Sistema Único de Saúde e as bases desse grande e valoroso contingente de combatentes. A luta foi também vitoriosa para os que investiram em ciência, essa que muda o trajeto dos projéteis.
Na última cena dessa farsa trágica, antes que as cortinas sejam cerradas, é preciso que essa peça mova a roda que muda o futuro. Os heróis precisam de medalhas: pagamento digno, regulação de jornadas, plano de carreiras. Que possamos mudar o rumo das próximas pandemias, pois não se engane, espectador: elas virão!