Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Brasil

Estamos confortáveis demais com a barbárie que fere a democracia deste país

Nossa total imobilidade e incapacidade de agir diante da selvageria, da crueldade e da bestialidade instaladas como políticas públicas são sinais evidentes de que estamos perdendo o controle

Públicado em 

04 mai 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

O presidente Jair Bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro Crédito: Isac Nóbrega/PR
O projeto civilizatório da humanidade, arquitetado de forma sofisticada ao longo da trajetória do homem na Terra, parece estar em franca derrocada. Nossa total imobilidade e incapacidade de agir diante da selvageria, da crueldade e da bestialidade instaladas como políticas públicas pautadas no atraso, na estupidez, na ignorância e na brutalidade são sinais evidentes de que estamos perdendo o controle do diagrama democrático no qual fomos desenhando e construindo um mundo possível a uma existência pautada na justiça, na igualdade, no respeito, na retidão e na busca de uma felicidade desejável para todos.
A insensibilidade e a indiferença diante dos milhares de corpos que vemos baixar a sepultura todos os dias sem que enxerguemos neles homens e mulheres como nós, carregados de humanidade, com seus sonhos, seus amores, seus afetos, pertencentes a famílias, queridos por alguém, ainda que vivessem de forma miserável e abandonados pelo poder público, são assustadoras e vergonhosamente deprimentes.
A apatia com que assistimos à naturalização da morte e à aceitação de um destino que nos coisifica, transformando cada um de nós em um número a compor as estatísticas e a fazer parte de alguma tabela exemplificativa dos casos de Covid no país, não pode ser considerada parte do pacto civilizatório no qual estamos inseridos.
A falta de ousadia em rechaçarmos com intrepidez a audácia de nossos representantes com seu escárnio público acerca da dor, do sofrimento, da fome e da miséria, insensíveis à angustia, à aflição, ao medo, ao luto, à falta de perspectiva de futuro, alimentando-se do prazer do sofrimento alheio, com piadas homofóbicas, machistas, racistas e depreciativas a dignidade e a honra alheia, é bem mais do que falta de coragem e dificuldade de mobilização em razão do isolamento que não permite aglomerações e movimentos populares de revolta e repulsa social.
A falta de indignação e de revolta com a publicação de uma imagem do presidente Bolsonaro, acintosa e criminosamente sorrindo, com uma placa na qual está escrito “CPF Cancelado” quando chegávamos a quase 400 mil mortes pelas Covid-19, muitas delas fruto de sua necropolítica delinquente e delituosa, é conivência vergonhosa e imoral.

SILÊNCIO INACEITÁVEL

O silêncio dos milhares de evangélicos brasileiros que têm se favorecido, muitas vezes, das benesses do poder, ao verem o ministro da Educação, pastor evangélico presbiteriano, que deveria estar pregando o amor e a solidariedade, reforçando o imaginário social ao reafirmar o projeto de extermínio, veiculado na gíria “CPF cancelado”, utilizada pelos grupos de extermínio quando colocam fim à vida de algum desafeto pertencente a facções contrárias ou policiais, mas sempre ligada a grupos defensores da violência e da justiça feita pelas próprias mãos, é cumplicidade e conivência que envergonha o evangelho e que entristece o Cristo que asseveram pregar.
“Diga-me com quem andas e te direi quem és” é mais do que um simples dito popular. A frase provocativa de riso do presidente Bolsonaro e dos ministros que o ladeavam sintetiza a antítese do cristianismo e deveria ter sido rechaçada pelos evangélicos que não comungam com tais posições.
Mas o silêncio omissivo e vergonhoso continua a sustentar a ideia difundida nos meios cristãos de que Bolsonaro é o melhor presidente que o Brasil já teve, porque “defende”, hipocritamente, os valores da família e a pauta de costumes.
A aceitação tácita da ligação de Bolsonaro e seus filhos com as milícias, capitaneadas pelo “tio Queiroz”, como é tratado com intimidade pelos filhos do presidente o policial bandido preso na casa do advogado da família Bolsonaro, constitui evidência de que a barbárie já se apossou de nossa cultura, imiscuindo-se no cotidiano da nação.
A convivência com um presidente paranoico, mentiroso, que não sustenta as asneiras e os disparates que vocifera em seus discursos ameaçadores, que pronuncia xingamentos em profusão com a mesma boca com que finge louvar a Deus, aceitando nos tornarmos párias internacionais, ridicularizados como país, que se deixa governar por um louco, negacionista, cujo filho, defensor de pauta anti-Direitos Humanos, chegou a conceder dezenas de medalhas de mérito a milicianos, vilões conhecidos em suas corporações, entre eles Adriano da Nóbrega, apagado, possivelmente, talvez, em razão do risco de que pudesse fraquejar em seus depoimentos comprometendo o presidente e seu clã, nos aponta para um desmonte, derrocada e falência de nossa já tão fragilizada e incipiente democracia.
Nosso ensurdecedor silêncio diante da retenção dos R$ 80,7 bilhões nos dá mostras de que abrimos mão do projeto civilizatório para permitir que a barbárie nos transforme a todos em bestas-feras a se digladiar por aquilo que nos é por direito. Parte desse dinheiro poderia ter sido utilizada como auxílio emergencial para aplacar a fome de tantos que, desempregados, viram seus filhos esquálidos, a mendigar a caridade e colocar sua dignidade a serviço daqueles que se regozijam em ajudas que lhes aplaca a consciência, mas que não estão dispostos a garantir direitos sociais, sob o argumento de que o Estado não pode sustentar aqueles que qualificam de forma perversa como “vagabundos”.
Assistir ao descaso presidencial e dos ministros da saúde com a compra das vacinas, que poderiam ter evitado tantas mortes, e às acusações infundadas, com tentativas de transferência de responsabilidades para governadores que estão defronte ao problema, administrando o caos fomentado pelo próprio presidente, e não nos mobilizarmos, aceitando nos deixar matar, sem nos levantarmos e exigirmos sua destituição imediata em um processo de impeachment, é assumir que admitimos a barbárie como modo de ser e conviver na atualidade. Assim, estamos abrindo mão do sonho de uma democracia que nos trate a todos como iguais e na qual a liberdade e a justiça não sejam um projeto de poucos, mas um direito de cidadania a ser garantido a todos.
Observar com naturalidade o projeto neoliberal que permitiu que bilionários ficassem R$ 10 trilhões mais ricos durante a pandemia, com a fortuna dos mais ricos crescendo 31% enquanto milhões morrem de fome, é aceitar que abrimos mão de nossa dignidade, nossa honradez, nossa humanidade e que estamos confortáveis, enlameados na barbárie que se instalou em nosso país e que fere de morte nossa democracia.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Mel Maia responde a críticas sobre aparência após morte da mãe
Imagem de destaque
Defesa de Hytalo Santos tenta anular condenação com base na 'lei Felca'
Imagem de destaque
Duas crianças são resgatadas desacordadas de incêndio em Colatina

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados