O projeto civilizatório da humanidade, arquitetado de forma sofisticada ao longo da trajetória do homem na Terra, parece estar em franca derrocada. Nossa total imobilidade e incapacidade de agir diante da selvageria, da crueldade e da bestialidade instaladas como políticas públicas pautadas no atraso, na estupidez, na ignorância e na brutalidade são sinais evidentes de que estamos perdendo o controle do diagrama democrático no qual fomos desenhando e construindo um mundo possível a uma existência pautada na justiça, na igualdade, no respeito, na retidão e na busca de uma felicidade desejável para todos.
A insensibilidade e a indiferença diante dos milhares de corpos que vemos baixar a sepultura todos os dias sem que enxerguemos neles homens e mulheres como nós, carregados de humanidade, com seus sonhos, seus amores, seus afetos, pertencentes a famílias, queridos por alguém, ainda que vivessem de forma miserável e abandonados pelo poder público, são assustadoras e vergonhosamente deprimentes.
A apatia com que assistimos à naturalização da morte e à aceitação de um destino que nos coisifica, transformando cada um de nós em um número a compor as estatísticas e a fazer parte de alguma tabela exemplificativa dos casos de Covid no país, não pode ser considerada parte do pacto civilizatório no qual estamos inseridos.
A falta de ousadia em rechaçarmos com intrepidez a audácia de nossos representantes com seu escárnio público acerca da dor, do sofrimento, da fome e da miséria, insensíveis à angustia, à aflição, ao medo, ao luto, à falta de perspectiva de futuro, alimentando-se do prazer do sofrimento alheio, com piadas homofóbicas, machistas, racistas e depreciativas a dignidade e a honra alheia, é bem mais do que falta de coragem e dificuldade de mobilização em razão do isolamento que não permite aglomerações e movimentos populares de revolta e repulsa social.
A falta de indignação e de revolta com a publicação de uma imagem do presidente Bolsonaro, acintosa e criminosamente sorrindo, com uma placa na qual está escrito “CPF Cancelado” quando chegávamos a quase 400 mil mortes pelas Covid-19, muitas delas fruto de sua necropolítica delinquente e delituosa, é conivência vergonhosa e imoral.
SILÊNCIO INACEITÁVEL
O silêncio dos milhares de evangélicos brasileiros que têm se favorecido, muitas vezes, das benesses do poder, ao verem o ministro da Educação, pastor evangélico presbiteriano, que deveria estar pregando o amor e a solidariedade, reforçando o imaginário social ao reafirmar o projeto de extermínio, veiculado na gíria “CPF cancelado”, utilizada pelos grupos de extermínio quando colocam fim à vida de algum desafeto pertencente a facções contrárias ou policiais, mas sempre ligada a grupos defensores da violência e da justiça feita pelas próprias mãos, é cumplicidade e conivência que envergonha o evangelho e que entristece o Cristo que asseveram pregar.
“Diga-me com quem andas e te direi quem és” é mais do que um simples dito popular. A frase provocativa de riso do presidente Bolsonaro e dos ministros que o ladeavam sintetiza a antítese do cristianismo e deveria ter sido rechaçada pelos evangélicos que não comungam com tais posições.
Mas o silêncio omissivo e vergonhoso continua a sustentar a ideia difundida nos meios cristãos de que Bolsonaro é o melhor presidente que o Brasil já teve, porque “defende”, hipocritamente, os valores da família e a pauta de costumes.
A aceitação tácita da ligação de Bolsonaro e seus filhos com as milícias, capitaneadas pelo “tio Queiroz”, como é tratado com intimidade pelos filhos do presidente o policial bandido preso na casa do advogado da família Bolsonaro, constitui evidência de que a barbárie já se apossou de nossa cultura, imiscuindo-se no cotidiano da nação.
A convivência com um presidente paranoico, mentiroso, que não sustenta as asneiras e os disparates que vocifera em seus discursos ameaçadores, que pronuncia xingamentos em profusão com a mesma boca com que finge louvar a Deus, aceitando nos tornarmos párias internacionais, ridicularizados como país, que se deixa governar por um louco, negacionista, cujo filho, defensor de pauta anti-Direitos Humanos, chegou a conceder dezenas de medalhas de mérito a milicianos, vilões conhecidos em suas corporações, entre eles Adriano da Nóbrega, apagado, possivelmente, talvez, em razão do risco de que pudesse fraquejar em seus depoimentos comprometendo o presidente e seu clã, nos aponta para um desmonte, derrocada e falência de nossa já tão fragilizada e incipiente democracia.
Nosso ensurdecedor silêncio diante da retenção dos R$ 80,7 bilhões nos dá mostras de que abrimos mão do projeto civilizatório para permitir que a barbárie nos transforme a todos em bestas-feras a se digladiar por aquilo que nos é por direito. Parte desse dinheiro poderia ter sido utilizada como auxílio emergencial para aplacar a fome de tantos que, desempregados, viram seus filhos esquálidos, a mendigar a caridade e colocar sua dignidade a serviço daqueles que se regozijam em ajudas que lhes aplaca a consciência, mas que não estão dispostos a garantir direitos sociais, sob o argumento de que o Estado não pode sustentar aqueles que qualificam de forma perversa como “vagabundos”.
Assistir ao descaso presidencial e dos ministros da saúde com a compra das vacinas, que poderiam ter evitado tantas mortes, e às acusações infundadas, com tentativas de transferência de responsabilidades para governadores que estão defronte ao problema, administrando o caos fomentado pelo próprio presidente, e não nos mobilizarmos, aceitando nos deixar matar, sem nos levantarmos e exigirmos sua destituição imediata em um processo de impeachment, é assumir que admitimos a barbárie como modo de ser e conviver na atualidade. Assim, estamos abrindo mão do sonho de uma democracia que nos trate a todos como iguais e na qual a liberdade e a justiça não sejam um projeto de poucos, mas um direito de cidadania a ser garantido a todos.
Observar com naturalidade o projeto neoliberal que permitiu que bilionários ficassem R$ 10 trilhões mais ricos durante a pandemia, com a fortuna dos mais ricos crescendo 31% enquanto milhões morrem de fome, é aceitar que abrimos mão de nossa dignidade, nossa honradez, nossa humanidade e que estamos confortáveis, enlameados na barbárie que se instalou em nosso país e que fere de morte nossa democracia.