Nos últimos dias, foi divulgado um documento intitulado “Trabalho. Democratizar. Desmercantilizar. Remediar” assinado por mais de 3.000 professores e pesquisadores que atuam em cerca de 600 universidades ao redor do mundo, chamando a atenção para a situação de desumanização do trabalho em tempos de Covid-19.
Os subscritores do documento iniciam lembrando-nos que o direito ao trabalho digno é um direito humano que vem sendo esquecido nestes dias que estamos vivendo. Ao definir quais os serviços essenciais e os estabelecimentos que podem funcionar durante a pandemia, os governantes esquecem-se de incluir os trabalhadores nos processos de tomada de decisão. Não é o trabalhador ou a trabalhadora que escolhe livremente voltar a trabalhar ou não, são os donos do capital que determinam juntamente com as autoridades quando voltarão a funcionar.
Foi assim que nesta segunda-feira empregados de academias e estúdios de atividades físicas foram convocados a voltar ao trabalho na região da Grande Vitória, sem terem sido consultados sobre o risco que estariam sendo expostos durante o transporte para o trabalho, tampouco sobre a condição de sua família e do seu lar com as escolas fechadas.
Os trabalhadores de serviços definidos como essenciais pelos governos em conversas com os empregadores não são consultados, não são ouvidos, são simplesmente uma força de trabalho desumanizada que deve estar de prontidão para assumir o risco de ser contaminada para atender aos anseios de consumo da população que pode ficar em casa durante a quarentena.
Seres humanos não podem ser vistos como meros recursos, nós somos muito mais do que isso. A usurpação do direito à saúde daqueles que são obrigados a sair de suas casas todos os dias para cuidar da saúde de outros, para trabalhar na segurança pública e em supermercados, em academias e no comércio é evidente. Será que essas pessoas não deveriam ter sido ouvidas antes de serem consideradas recursos necessários para manter o funcionamento dos serviços ditos essenciais?
E as pessoas que estão trabalhando em home office, será que foram consultadas sobre a necessidade de estar sempre disponíveis durante 24 horas do dia e sete dias por semana? Será que mulheres em home office são assistidas por seus empregadores e companheiros para que elas possam melhor dar conta das tarefas domésticas que invariavelmente sobrecarregam mais as elas do que aos homens? Que dizer então dos serviços de entrega de comida? Estarão os entregadores de Uber eats e ifood preparados com equipamentos de proteção necessários para não serem contaminados pelo coronavírus?
Os pesquisadores e professores que assinam o documento pedem a democratização do trabalho, com possibilidade de se ouvir os trabalhadores por meio de conselhos, como os instalados pelo direito do trabalho alemão depois da Segunda Guerra Mundial. O direito ao trabalho não é somente o direito a um emprego, mas sim o direito de ser tratado dignamente, de não ser exposto a riscos desnecessários no seu ambiente de trabalho.
Aqui no Brasil, o descaso com a vida humana tem-se mostrado tão grande que quem determina o plano de enfrentamento à Covid-19 é o mercado e o um superministro da Fazenda. Nesta segunda-feira, dia 25 de maio, com mais de 20 mil mortos no Brasil, o segundo maior número de mortos e contaminados no mundo, o mercado financeiro fechou em alta e o preço do dólar caiu; dois sinais evidentes de que a economia está indo bem, obrigada, ao contrário dos seres humanos que vivem no país.
Além do descaso com a vida dos trabalhadores, o Estado brasileiro dá sinais de que menospreza o meio ambiente e a sua preservação para futuras gerações. No vídeo da reunião ministerial do governo federal, divulgado na última sexta-feira, dia 22 de maio, o ministro do Meio Ambiente diz que aproveita o momento de pandemia para desmantelar o sistema de proteção ao meio ambiente no país. O que o senhor ministro não entende é que as empresas e o meio ambiente devem trabalhar juntos de forma a preservar o ecossistema de forma sustentável e inovadora, buscando novas fontes de energia e novas formas de produção.
Cuidar dos trabalhadores e do meio ambiente não é só tarefa de um governo que respeita os direitos humanos, mas também dever das empresas no mundo contemporâneo. Nas palavras dos autores do texto, apesar dos enormes desafios para criar um ambiente propício a “negócios com consciência social e gestão cooperativa” é preciso impor essa nova lógica ao mercado.
“Não podemos continuar nos enganando: se deixados a sua própria sorte, a maior parte dos investidores de capital continuarão não se importando com a dignidade daqueles e daquelas que investem sua força de trabalho; tampouco irão liderar a luta contra a catástrofe ambiental. Uma outra via é possível. Democratizar empresas; desmercantilizar relações de trabalho; e focar, juntos, em regenerar o planeta.”
Vamos, então, aproveitar a crise para pensar numa outra via de regenerar o planeta e as relações humanas.