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Comendo chocolate e mastigando gelo: o guia dado como morto no Everest contou à BBC como sobreviveu

Da cama do hospital em Katmandu, Dawa Sherpa contou à BBC como ficou sem oxigênio durante a descida do Everest, foi obrigado a ficar para trás e caiu em uma fenda, onde passou dois dias e meio preso.

Publicado em 06 de Junho de 2026 às 13:35

BBC News Brasil

Publicado em 

06 jun 2026 às 13:35
Imagem BBC Brasil
Da cama do hospital onde se recupera, o guia contou à BBC como saiu com vida da montanha mais alta do mundo. Crédito: PRABIN RANABHAT / AFP via Getty Images
O guia nepalês encontrado vivo após permanecer seis dias sozinho no monte Everest contou à BBC que sobreviveu mastigando gelo e comendo chocolates que tinha no bolso.
Dawa Sherpa afirmou que não desapareceu durante a descida, mas que foi obrigado a ficar para trás depois que o oxigênio acabou.
Acreditava-se que ele tivesse morrido na montanha. Sua família em Katmandu, capital do Nepal, já havia começado os ritos fúnebres quando uma equipe de resgate o avistou descendo em direção ao acampamento-base.
O guia foi levado de helicóptero a um hospital em Katmandu, onde falou com a BBC enquanto recebia tratamento para desidratação, congelamento e uma fratura.
"Não achei que sobreviveria", disse ele na sexta-feira ao Serviço Nepalês da BBC. "Achei que ia morrer", admitiu.
O escalador Chris Thrall foi a última pessoa a ver Dawa Sherpa antes do resgate. O encontro aconteceu nas proximidades da famosa Cascata de Gelo de Khumbu, na quinta-feira (4/6).
O ex-militar britânico relatou que o homem, de 57 anos, estava sentado sobre a própria mochila logo acima do Acampamento 3, a cerca de 7.500 metros de altitude, "como já tinha feito centenas de vezes antes para descansar um pouco".
Thrall continuou descendo sozinho entre 50 a 100 metros, segundo seus cálculos, antes de encontrar outro membro do grupo, um escalador polonês sem oxigênio e em estado severo de congelamento.
"Imediatamente, minha atenção se voltou para o mais fraco do grupo. E foi aí que tudo mudou", disse à BBC.
"Enquanto eu olhava para cima, ajudando esse homem a descer, Dawa Sherpa parecia não ter se mexido. E certamente não estava descendo, porque teríamos visto a lanterna da cabeça dele", afirmou.
Imagem BBC Brasil
Dawa Sherpa está na UTI de um hospital em Katmandu, onde um familiar conseguiu fotografá-lo. Crédito: PRABIN RANABHAT / AFP via Getty Images

Preso em uma fenda

Dawa Sherpa contou à BBC que passou por momentos muito difíceis.
"Quando o oxigênio acabou, eu não conseguia andar", explicou.
"Não comi nada nos dois primeiros dias. Depois, comecei a mastigar gelo. Meus dentes doíam. Eu mastigava com força", relatou o guia.
Em seguida, Sherpa encontrou chocolates nos bolsos da roupa e conseguiu beber um pouco de gelo derretido.
O guia começou a descer a montanha lentamente, mas caiu em uma fenda, segundo duas pessoas que conversaram com ele sobre sua experiência.
Ele ficou preso ali por dois dias e meio, sem conseguir encontrar uma saída.
Então, uma avalanche arrastou neve para dentro da fenda, dando a ele a primeira esperança em dias.
"Ao pisar na neve, fiquei de pé e olhei para cima... senti que poderia sair dali", contou à BBC.
Depois de conseguir sair da fenda com muito esforço, encontrou cordas que o ajudaram na descida.
Uma nova avalanche quase o impediu de seguir, mas ele estava decidido a continuar.
"Consegui atravessar a neve e desci. Caminhei a noite toda. Então, me aproximei do acampamento-base", contou.
Foi ali que viu as primeiras pessoas em quase uma semana.
"Uns rapazes estavam subindo para recolher o lixo. Eu os encontrei, e eles me carregaram montanha abaixo", narrou.
Imagem BBC Brasil
Dawa Sherpa (à esquerda), que se temia ter morrido em algum ponto da montanha mais alta do mundo, conseguiu se salvar. Crédito: Sagarmatha Pollution Control Committee (SPCC)

"Indescritível"

A notícia causou comoção e alegria na comunidade sherpa, entre os colegas de expedição e em sua família.
Cinco pessoas morreram durante a temporada de escalada deste ano. Desde o início dos registros, na década de 1920, mais de 300 já morreram no Everest.
Pemba Sherpa, diretor-executivo da 8K Expeditions, empresa que coordenava as buscas, classificou o feito como um "verdadeiro autorresgate".
"Dawa conseguiu sobreviver contra todas as probabilidades por dias. É um verdadeiro milagre", disse.
Quando Thrall viu pela primeira vez comentários nas redes sociais de que Dawa Sherpa — também conhecido como Hillary Dawa Sherpa, em homenagem ao famoso alpinista Edmund Hillary — havia sido encontrado vivo, pensou que fosse spam.
"É inacreditável: em um minuto eu estava contendo as lágrimas com a filha dele, e no minuto seguinte o vi chegar rastejando ao vilarejo", disse Thrall à BBC.
"É absolutamente incrível, indescritível", acrescentou.
A esposa do guia, Damu Sherpa, contou à BBC que havia perdido as esperanças quando a empresa da expedição informou que o resgate era impossível e que a família havia começado os ritos fúnebres.
"Quando o vi pela primeira vez, fiquei muito surpresa. Estava angustiada depois que nos disseram que ele nunca mais voltaria para casa. Não consigo acreditar que ele tenha voltado vivo", disse.
"Não conseguia acreditar no que meus olhos viam quando vi que ele havia voltado são e salvo".
"Eu me pergunto quanto tempo ele sobreviveu sem comida e sem mantimentos... Não consigo entender como meu marido conseguiu comer e beber em uma altitude dessas. Espero que ninguém tenha que passar por isso", afirmou.
Damu Sherpa acrescentou que o governo nepalês deveria garantir que incidentes semelhantes não voltem a acontecer.
"Ele me reconheceu... está bem e fala. Estamos felizes", declarou a filha do guia, Mhendo Lhamo Sherpa, à agência Reuters, após visitá-lo.
Os médicos do Hospital HAMS, em Katmandu, afirmaram que Dawa Sherpa recebe atendimento integral na UTI. Seu estado é estável e a desidratação está melhorando significativamente.
Mais de mil pessoas chegaram ao topo do Everest nesta temporada, a mais movimentada da história.
Imagem BBC Brasil
A esposa (à direita) e a filha (à esquerda) do guia permanecem no hospital à espera da alta médica. Crédito: PRABIN RANABHAT / AFP via Getty Images

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