Em tempos de desemprego e quarentena, a fome grita mais alto e a falta de alimentos na mesa expõe a dramática situação que vivem muitos capixabas. Diante deste drama da vida real cabe-nos perguntar: É dever moral socorrer os que mais precisam? Acaso, tenho alguma responsabilidade com alguém que precisa de ajuda material?
A individualização crescente e fundante da sociedade que vivemos impõe a todos, como regra, um modelo de vida em que cada um deve se virar e com suas próprias forças tentar se manter vivo.
Esta mesma individualização nos faz acreditar que a vida de cada um está repleta de riscos que precisam ser enfrentados e combatidos por si mesmo. E se não obtiver sucesso na superação dos problemas e nas conquistas sou um fraco. Isto é dito para as pessoas, e elas chegam a acreditar, de modo que se comportam como se essa fosse de fato a verdade que devem seguir.
O que falo é tão evidente que “os riscos e as contradições são produzidos socialmente, em escala sistêmica e global”; mas apenas o dever e a necessidade de lidar com eles que estão sendo individualizados, cobrados de cada um de nós. As consequências são colocadas na conta de cada indíviduo. Cada um é obrigado a adequar o seu modo de viver as tantas e muitas crises produzidas em sociedade.
Contudo, a ideologia de “cada um por si e Deus para todos” defende que só os mais aptos e preparados sobrevivem. Já estão doutrinados na individualização doentia. Mas como ficam, então, os que não têm redes de proteção social? Quem irá socorrê-los em tempos de crise sanitária e pandemia como agora?
Vejamos o caso do Espírito Santo. Aqui, temos um grande desafio. Pois temos um elevado número de favelas. Segundo dados (IBGE, 2010), a Grande Vitória é uma região com mais de 200 mil habitantes vivendo nestas condições (IBGE-2010), sendo mais de 60 mil vivendo em aglomerados subnormais, isso quer dizer, em barracos ou casas que não oferecem as condições necessárias a ter uma vida saudável e digna.
Esta desigualdade que afeta a pessoa na sua existência, seu modo de ser e viver, revela e denuncia o modelo de sociedade que estamos vivendo, onde as categorias mais humilhadas, desrespeitadas e inferiorizadas pagam o preço pela disputa econômica voraz e pela destruição do nosso planeta. O que é fazer justiça nestes casos? O que é fazer a coisa certa? Como amenizar o problema de conviver com o vírus na Grande Vitoria?
Vivemos há décadas em um desafiador aumento do déficit habitacional na Grande Vitoria. Em tempos de crise como agora, medidas como estatizar hotéis ou contratar quartos para abrigar os pobres mais vulneráveis não estão sendo tomadas. O povo cria formas de socorro aos seus. Grupos de moradores organizados da periferia mostram que é possível fazer a diferença em meio à crise que os faz sofrer.
Já que “a corda arrebenta sempre pelo lado mais fraco”, quem sabe, se ficar ombro a ombro e marchar não poderia oferecer algum alívio nestes tempos difíceis? É o que está fazendo grupos de coletivos jovens e moradores nas periferias da Grande Vitoria. A campanha solidária “Favela contra o coronavírus” faz a seguinte reflexão: “Neste momento delicado sabemos o quanto a quarentena causada pelo coronavírus afeta drasticamente as favelas do Território do Bem”. E pergunta: “E quem cobrirá esta região”? O objetivo é arrecadar alimentos e itens de higiene, segundo a organização, para atender aos bairros São Benedito e Bairro da Penha. Em vários bairros da Grande Vitoria, o socorro aos mais carentes está acontecendo neste momento.
O sociólogo Zigmun Bauman chamou a atenção para a necessidade de questionar este modelo de individualização. Ele diz que temos sim o dever moral de socorrer uns aos outros, de ajudar o nosso próximo. Para ele, isso é uma questão de caráter e o agir solidário sedimenta o alicerce daquilo que forma a nossa espécie humana e dá sentido a mesma. Que estes exemplos dos moradores das favelas e periferias, nestes dias desafiadores, sejam o combustível para seguirmos em frente e superarmos juntos a crise que estamos passando.