Ninguém gosta de ficar numa fila! O que nos leva, então, a ficar em pé e no tempo enquanto aguardamos atendimento? Aprendemos uma ética desde a infância: espere a sua vez! Chegar primeiro, para ser atendido primeiro! Esta ética tem um apelo igualitário. É um convite a abandonar os privilégios, o poder e a força do bolso.
Por trás deste imperativo ético do atendimento prioritário, para quem respeita a fila, está o conceito de civilidade e direito. Só por meio de lei este princípio pode ser alterado. São os atendimentos prioritários de alguns casos especiais, como idosos, gestantes ou pessoas com deficiência, que têm o direito de passar na frente de todos na fila.
Contudo, isso funciona bem quando a vida segue normal e não estamos numa pandemia. Mas em tempos perigosos como este, do coronavírus, a ética das filas não prevalece para todas as situações. Assistimos no início da quarentena a uma corrida desesperada aos supermercados e para a compra exagerada de alimentos por parte de pessoas com maior poder financeiro.
Isso obrigou os proprietários, em muitos mercados, devido às pressões de setores da sociedade, a fazer filas e limitar a quantidade de compras por pessoa. Nesta fila do carrinho cheio não estavam os pobres, informais e desempregados. No entanto, ninguém se preocupou em deixar um pouco para eles.
O mesmo aconteceu com o álcool em gel e as máscaras, que sumiram das farmácias e lojas do gênero. Mesmo com fila de espera e dinheiro para pagar um preço muito acima do mercado, muitas pessoas não conseguiam comprar. Nesta fila do álcool, teve empresas com produtos falsos e espertalhões com preço muito acima do praticado no mercado.
Em seguida veio a crise do gás. Preços abusivos e filas enormes se formaram nos bairros. Dispostas a pagar o preço, pessoas ficavam o dia todo plantadas na fila, expostas a contaminação do Coronavírus. No fim do dia nem todos conseguiam a botija, pois muitos compravam a mais para estocar em casa ou para parentes e amigos.
A mais terrível das filas, até o momento, são as do auxílio nada emergencial. O impacto do coronavírus nas favelas e bairros com menor proteção social foi muito grande. Porém, a tão esperada emergência, que poderia ajudar, veio com atraso, sem falar que muitas pessoas não conseguiram receber até hoje. O que reforça a estratégia do governo federal para romper o isolamento e o confinamento social.
Este que deveria ser um alívio para trabalhadores de várias categorias se transformou em martírio diário. A cada manhã, milhares de pessoas continuam sendo empurradas para longas filas, expostas à contaminação que podem resultar em morte. Uma espécie de “e daí?” para o contágio e a fome da população. Esta fila vai levar muitos capixabas a outras tantas filas que virão.
No ritmo que segue o avanço do contágio do coronavírus no Espírito Santo, apesar das ações positivas do governo do Estado, nem precisa ser especialista para prever que em pouco tempo teremos a fila dos leitos e dos respiradores. Infelizmente, a doença é rápida e o prazo de espera nestas filas é muito curto. O que vai causar outras filas mais tristes ainda. Caso a quarentena siga sem ser observada, como está ai para todos verem, a fila dos respiradores vai crescer a ponto de levar a uma fila que ninguém quer: a dos carros de funerária, a dos caixões em valas comuns, da remoção de corpos nas casas e a triste fila dos familiares desconsolados, que não podem se despedir e enterrar seus entes queridos.
O que deve ser feito para cessar estas filas? É papel dos governantes preparar o Estado para os reais perigos que ele pode enfrentar. Mas qual é a coisa certa a fazer quando enfrentamos uma situação totalmente sem precedentes como esta da pandemia de coronavírus? É difícil estabelecer prioridades em tempo real quando se trata de uma pandemia em que vidas de milhões de pessoas estão em risco grave.
Enquanto a fila fácil das criticas, destas mesmas decisões, não para de aumentar. Em que fila você está? Em que fila você espera ficar? O que pode ser feito então? Neste exato momento, não tem outra saída: é preciso respeitar a quarentena, com o mínimo de pessoas na rua e manter o comércio fechado, para não entrarmos para a historia como responsáveis ou cúmplices de um genocídio capixaba.