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É hora de sair do muro contra as violações aos direitos humanos no país

O que diferencia as pessoas que têm coragem de lutar contra a opressão de governantes tirânicos daquelas que se conformam com as regras postas por um governante, mesmo que elas violem a democracia e os direitos humanos?

Públicado em 

13 mai 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

O youtuber e empresário Felipe Neto
O youtuber e empresário Felipe Neto Crédito: Reprodução/Instagram @felipeneto
Filipe Neto, um desconhecido para muitos intelectuais e acadêmicos até então, acabou dizendo o que todos deveriam ter dito há muito tempo: não é hora de se calar, se você defende a democracia e o estado democrático de direito tem que se manifestar já, mostrar de que lado você está!
Essa afirmação, gravada em vídeo, feita pelo youtuber, vem sendo criticada e, ao mesmo tempo, supervalorizada pela classe política brasileira. Uns dizem que ele não teria legitimidade para criticar o presidente da República porque o teria apoiado anteriormente, outros aceitam o seu arrependimento e apoiam a sua nova conduta.
Toda vez que vejo situações como essa do vídeo do Filipe Neto lembro-me da história verdadeira dos Irmãos Scholl, contada no filme Sophie Scholl: uma mulher contra Hitler. O filme alemão conta a história dos últimos cinco dias de Sophie e seu irmão na Alemanha de Hitler. Era fevereiro de 1943 e Stalin tinha derrotado Hitler em Stalingrado. Os aliados se aproximavam, Hitler estava perdendo poder, mas mesmo assim grande parte da população alemã acreditava nas loucuras que ele pregava.
Ademais, as retaliações da Gestapo estavam em seu auge, qualquer ato suspeito era investigado e a pena para aqueles que tinham opinião contrária a de Hitler era a de morte. Pais denunciavam filhos, filhos denunciavam pais, judeus eram queimados vivos em campos de concentração.
Apesar de saber de todas as atrocidades cometidas, muitos alemães tinham medo de se manifestar publicamente contra Hitler, mas Sophie Scholl não, ela não se calou, ela decidiu que não era o momento de ficar em cima do muro, que todos deveriam manifestar-se contrariamente ao governo de Hitler.
O que diferencia as pessoas que têm coragem de lutar contra a opressão de governantes tirânicos daquelas que se conformam com as regras postas por um governante, mesmo que elas violem a democracia e os direitos humanos?
A história dos irmãos Scholl pode nos ajudar a entender: Sophie e seu irmão Hans Scholl faziam parte do movimento político Die Weisse Rose (A Rosa Branca), por meio do qual distribuíam panfletos e enviavam cartas informando os cidadãos alemães sobre os atos praticados pelo governo que violavam direitos, regras políticas e assassinavam inocentes. Porém, nessa época na Alemanha, qualquer crítica ao governo era visto como crime de traição e sujeita à pena de morte.
Sophie foi presa por um estudante que a reteve até que a Gestapo chegasse ao local, quando entregava panfletos na Universidade de Munique em 18 de fevereiro de 1943, daí em diante transcorreram somente cinco dias para a execução de sua pena de morte.
Sophie Scholl, alemã, mulher, estudante universitária, que mesmo diante de um regime machista, extremamente opressor e cruel, não se calou. Sua história junto ao movimento político Die Weisse Rose foi esquecido pelos homens que contaram a história da II Guerra. Foi somente o filme lançado em 2005 que rendeu a ela a homenagem devida. O seu feito hoje é simbólico para que nos lembremos que em momentos de crise é preciso tomar posição.
Durante seu julgamento, Sophie disse aos seus acusadores: “Em breve vocês estarão sentados aqui, onde eu estou hoje”. E de fato, entre 20 de novembro de 1945 e 1º de outubro de 1946 eram os acusadores de Sophie e outros oficiais nazistas que estavam sentados no banco dos réus, no Julgamento de Nuremberg.
Que o exemplo de Sophie Scholl seja escutado por muitas mulheres, meninas e homens, que ainda não se manifestaram sobre as violações aos direitos humanos que estamos vendo acontecer no Brasil atualmente. Que não sejamos nós as(os) que estarão sentadas(os) no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional pelo genocídio de milhares de brasileiros negros, pobres e índios, esquecidos por governantes que estão mais preocupados em reabrir o comércio e academias de ginástica do que em salvar vidas.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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