É o que aponta o estudo feito pelo professor da Ufes Gustavo Forde, doutor em Educação e pesquisador nas áreas relações étnico-raciais e estudos afro-brasileiros. Segundo Forde, entre os dados apresentados pela Secretaria de Saúde do Espírito Santo, disponibilizado no Painel Covid-19 – Espírito Santo, com exceção do grupo de idosos, o grupo que apresenta maior taxa de óbitos são o de mulheres pobres negras e adultas. Ele conclui que as mulheres negras adultas estão entre os grupos de pessoas com maior índice de vulnerabilidade e, portanto, registra-se aumento significativo de óbitos pelo novo coronavírus.
A pesquisa foi desenvolvida durante 60 dias, entre 29 de fevereiro e 28 de abril de 2020. Ela examina e compara o índice de óbitos entre brancos e negros. A mesma aponta que, se comparadas as diferenças entre os índices de infecções e de óbitos a partir do recorte raça/cor e gênero (masculino e feminino), é possível identificar um expressivo crescimento nas diferenças entre brancos e negros.
De acordo com o resultado, “no sexo masculino, pessoas brancas e negras apresentam diferença de 0,9% nos índices de infectados. No entanto, essa diferença salta para 13,6% quando são comparados os índices de óbitos (um crescimento de 1.411,1%, correspondente ao aumento de 14,11 vezes).”
Mas há um aumento de óbitos ainda maior quando os dados são com relação ao sexo feminino. “Entre as mulheres brancas e negras a diferença entre os índices de infectados é de 6,3%. Salta para absurdos 24,2% quando se comparam com os índices de óbitos (um crescimento de 284,1%, correspondente ao aumento de 2,84 vezes).”
O professor e sua equipe, ao problematizar os dados do Estado sobre a Covid-19, lançam um questionamento sério e desafiador para o Estado ao definir onde serão os investimentos públicos para a pandemia: “Como explicar essa diferença que tende a crescer nos índices de óbitos entre brancos e negros?” E continuam: “Como atenuar a vulnerabilidade de óbito decorrente da Covid-19, que ameaça, particularmente, a população negra?” E ainda: Como explicar essa gritante taxa de mortalidade que afeta as mulheres negras?
A resposta a essas perguntas não podem ignorar “a categoria de análise raça/cor e os seus impactos na base da nossa sociedade” capixaba estruturalmente racista. O estudo orienta o governo que diante da realidade de morte dos negros e negras pelo contágio do coronavírus, “não parece razoável ignorar o pertencimento raça/cor das vítimas e os efeitos do racismo (interpessoal, institucional e estrutural) no índice de óbitos causados pelo coronavírus, no Espírito Santo.”
A conclusão denuncia, a partir dos dados e da análise de infectados brancos e negros apresentarem alguma proximidade, que em condições de equidade ao acesso aos bens e serviços de saúde pública, abastecimento regular de água tratada, rede de esgoto, a coleta de lixo, essa proximidade se manteria ou apresentaria uma pequena variação. Por isso, esta crise sanitária se revela uma preocupante problemática que requer atenção e definição de prioridades por parte da gestão pública de saúde por parte do Estado.
A sociedade capixaba é tudo aquilo que os capixabas fazem dela. Em tempos sombrios que exigem atitudes pessoais e tomadas de decisão por parte dos governos, que podem afetar a vida de milhões de pessoas. Neste momento, se nada for feito para avançar a terrível barreira que separa os que têm recursos para sobreviver daqueles que estão morrendo por falta do mínimo necessário, valores como direitos humanos, democracia, igualdade e solidariedade podem sumir em meio a brutal diferença de acesso aos benefícios para se manter vivo.
O sociólogo Boaventura, em sua análise sobre a pedagogia do coronavírus, diz que a degradação das politicas sociais em nome das políticas de austeridade, estado mínimo, sob o pretexto de crise financeira do Estado, a privatização dos serviços públicos e o subfinanciamento do que restou por não interessar ao capitalismo, fez com que o Estado chegasse aos nossos dias sem capacidade efetiva para responder a crise humanitária que se abate sobre seus cidadãos. E a face mais cruel desta realidade se dá com a morte de negras e negros nas periferias das regiões metropolitanas.
Qual deve ser a responsabilidade do Estado diante deste quadro? A principal função da politica é ser mediadora entre as reais necessidades da população e os poderes constituídos, de forma que as tomadas de decisão possam reduzir o sofrimento e mitigar os problemas que afetam a vida das pessoas. E como as pandemias agravam as desigualdades já existentes, se a ação do Estado e suas politicas públicas não for para salvar vidas, proteger as vidas dos vulneráveis da crise da pandemia, não sei pra que serve então.