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Decisão pró-Lula: críticas, empolgação e frustração no universo político

As diferentes correntes ideológicas analisam a anulação da condenação do ex-presidente na operação Lava Jato, que agora poderá disputar as eleições

Publicado em 08/03/2021 às 19h36
Atualizado em 08/03/2021 às 19h36
O ex-presidente Lula vota na Escola Estadual José Firmino Correia de Araújo, no Jardim Lavínia, em São Bernardo do Campo (SP)
 Lula em dia de eleição: com a decisão do ministro Edson Fachin, o ex-presidente pode voltar a ser candidato. Crédito: Marlene Bergamo/Folhapress

A decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que anulou processos contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e devolveu a ele os direitos políticos foi recebida com indignação, frustração e empolgação em diferentes correntes do universo político.

As primeiras reações à decisão, expressas por autoridades, parlamentares e dirigentes partidários em redes sociais e entrevistas, convergiram ao menos em um ponto: a eventual entrada do petista no xadrez eleitoral da corrida ao Planalto em 2022 embaralha todos os cenários calculados até agora.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que hoje é favorecido pela fragmentação na esquerda e na direita -ambas em busca de competidores fortes para enfrentar o postulante à reeleição-, pode ganhar um adversário de peso caso Lula, que governou o país de 2003 e 2010, decida concorrer.

Uma das hipóteses discutidas é a de que uma repetição da polarização com o PT, ocorrido no segundo turno de 2018, abra caminho para a recondução do atual mandatário. Por essa leitura, o antipetismo pode falar mais alto novamente e dar a Bolsonaro um segundo mandato.

Outros líderes políticos apostam que a reprise do embate interessa às duas forças antagônicas, já que poderia representar uma espécie de revanche, sem a interferência de adversários que se apresentem como opções mais moderadas ou conciliadoras.

BOLSONARISTAS

Bolsonaristas que simpatizam com a agenda do combate à corrupção, um dos pilares da vitória do atual presidente em 2018, lamentaram a decisão de Fachin. Em um primeiro momento, porém, muitos deles evitaram fazer relação direta entre a recuperação dos direitos político de Lula e a eleição.

"Com a decisão, o ex-presidiário recupera os direitos políticos e volta a ser elegível", escreveu a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), aliada de Bolsonaro no Congresso. "O ex-presidente agora torna-se elegível de acordo com a Lei da Ficha Limpa. Onde iremos parar?", reagiu Chris Tonietto (PSL-RJ).

O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, chamou a decisão de Fachin de insanidade, golpe e abuso de autoridade. Para o aliado de Bolsonaro, o ministro do STF, "numa canetada só, acabou com todo o trabalho da Lava Jato".

"Essa é a prioridade do Brasil, inocentar Lula? Acusam Bolsonaro de não fazer nada para combater a pandemia, mas o que mais estão preocupados é com a situação política de Lula? Faltam palavras para classificar o sentimento diante de tamanho absurdo", afirmou Jefferson.

Líder do Novo na Câmara, o deputado federal Vinicius Poit (SP) qualificou a decisão como absurda e "piada com os brasileiros". E criticou: "Impunidade reinando".

MODERADOS DA DIREITA

No campo que se coloca no centro do espectro político e vem trabalhando pela construção de alternativas ao bolsonarismo e ao petismo, Fachin despertou desânimo. Opositores de Bolsonaro que navegam em faixas moderadas da direita disseram que a chama da polarização vivida em 2018 poderá ser reacesa.

"Lula elegível. Bolsonaro acaba de ser reeleito. Desolador", afirmou o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP). "A única chance de Bolsonaro em 2022 é Lula, e a única chance de Lula é Bolsonaro. Um só tem chances de vencer se for para o segundo turno com alguém de rejeição semelhante. Brasil segue afundando em qualquer um dos cenários."

Pré-candidato do DEM a presidente, o ex-ministro da Saúde (gestão Bolsonaro) Luiz Henrique Mandetta foi na mesma toada: "Os extremos comemoram, pois se nutrem um do outro. A ruptura da liga social brasileira avança. Mais que nunca, o povo de bem terá que apontar o caminho para pacificar este país".

O apresentador e presidenciável Luciano Huck, tido em alas de centro como um nome que poderia encarnar a figura da terceira via, disse que é preciso "respeitar a decisão do STF e refletir com equilíbrio sobre o momento e o que vem pela frente".

Sem especificar se tratava do cenário eleitoral, o comunicador da TV Globo, que não tem filiação partidária nem oficializou sua entrada na vida pública, concluiu: "Mas uma coisa é fato: figurinha repetida não completa álbum".

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que vem trabalhando pela construção de uma candidatura presidencial de oposição ao bolsonarismo e ao petismo, adotou o silêncio e, até o início da noite, não havia comentado o episódio.

Presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo disse, por meio de nota, que a decisão "abre espaço para a contraposição direta, no Brasil, dos candidatos que tem representado os extremos, à direita ou à esquerda, Bolsonaro e Lula".

"Mas também é uma oportunidade para candidaturas de centro, ponderados, se apresentarem melhor. A maioria dos brasileiros está cansada de gritaria, de grupos inconciliáveis, de crise. Quer é superar a pandemia e olhar para frente", afirmou Araújo.

O PSDB -que também abriga o presidenciável Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul- fez manifestações em redes sociais nas quais sugeriu que a decisão deixa Bolsonaro e Lula felizes.

O perfil do PSDB no Twitter afirmou que "existe caminho fora dos extremos", que "o Brasil merece mais trabalho e menos gritaria". O discurso propagado pela direção tucana foi o de que "o Brasil pode ter a chance de, democraticamente, se livrar do lulismo e do bolsonarismo em 2022. Basta votar diferente".

ESQUERDA

O presidenciável Ciro Gomes (PDT), nome da esquerda que quer buscar apoios no centro e tem pontuado seu distanciamento da ala lulista do PT, evitou comentar reflexos no jogo eleitoral, mas postou em uma rede social uma compilação de falas suas com críticas à Lava Jato.

"Sobre a decisão do ministro Fachin, veja o que sempre tentei avisar ao Brasil", escreveu.

Há alguns dias, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo , Ciro afirmou que "Lula foi vítima de julgamentos muito suspeitos por parte do então juiz Sergio Moro".

Na esquerda que mantém interlocução com Lula, a medida judicial foi recebida com empolgação e interpretada como sinal automático da candidatura. Guilherme Boulos (PSOL) disse que a decisão "vem com três anos de atraso, mas desmonta a farsa que elegeu Bolsonaro."

O ex-candidato a prefeito de São Paulo, cotado para disputar a Presidência em 2022, afirmou não ver a entrada de Lula na disputa como empecilho para a união da esquerda, pela qual ele vem trabalhando, com o objetivo de evitar um novo triunfo de Bolsonaro.

"Continuo trabalhando para uma mesa de unidade, uma mesa de salvação nacional, para que a esquerda chegue de forma unitária em 2022 e derrote Bolsonaro", disse, rechaçando a tese de que a decisão possa reforçar a reeleição do presidente. "Não dá força para Bolsonaro, mas para a democracia brasileira."

Presidente do PCO e entusiasta de uma candidatura lulista, Rui Costa Pimenta foi às redes sociais comemorar. "Mas é preciso acompanhar cuidadosamente o jogo da burguesia. [...] A decisão foi tomada para preservar os crimes da Lava Jato e dos golpistas, incluindo as mazelas do próprio STF", afirmou.

"Lula candidato já e às ruas!", exortou Pimenta.

CANDIDATURA BARRADA

Em 2018, Lula teve a candidatura barrada pela Justiça Eleitoral e foi substituído pelo então candidato a vice na chapa, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que no mês passado, diante da indefinição do futuro do ex-presidente, foi lançado pelo PT como pré-candidato.

Lula, porém, deu sinais de que não descarta tentar um retorno ao Planalto. Nas últimas semanas, ele afirmou estar "à disposição" para enfrentar o atual chefe do Executivo e falou que poderia colocar seu nome nas urnas casou houvesse "uma razão maior".

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